Resenha – Flores para Algernon
por Patricia
em 03/05/21

Nota:

Charlie Gordon tem 32 anos e 68 de QI. Mal sabe escrever e ler e suas interações sociais são, no mínimo, desajeitadas. Ele trabalha desde os 16 anos na Padaria Donners de um amigo de seu falecido tio. Ele também frequenta uma escola para deficientes mentais em que desenvolve o pouco que sabe de leitura e escrita.

Sua sede por conhecimento e sua vontade de “ser inteligente” o coloca como candidato ideal para uma cirurgia revolucionária que busca aumentar o QI de pessoas com desenvolvimento deficiente. A cirurgia havia sido testada em ratos e um deles, Algernon, teve resultados impressionantes. Os cientistas estavam prontos para uma cobaia humana.

O livro vai nos contar a história a partir dos testes pré-cirurgia com relatórios de progresso em que Charlie era encorajado a escrever o que estivesse pensando e sentido naquele momento. A escrita reflete seu nível escolar:

O professor Nemur disse que si funcionar e for permanente eles também vão fazer outras peçoas espertas como eu. Tal ves peçoas de todos os lugares do mundu. E ele disse que isso quer diser que istou fazendo algo incrível para ciensia e vou ser famozo e meu nomi vai aparecer em livros. (pág. 20)

Sua principal preocupação era ser esperto, ser considerado inteligente. A operação é um sucesso e Charlie, rapidamente, começa a desenvolver uma inteligência impressionante. Seu QI sobe diariamente e, em poucos meses, ele já é fluente em 20 idiomas, consegue analisar questões de física e química avançadas e chega até a questionar os cientistas que conheceu na Universidade.

Na padaria, as coisas ficam complicadas quando as pessoas percebem nele uma mudança radical, mas não sabem o que aconteceu porque a cirurgia deve ser sigilosa. Elas passam a ter medo dele e ele é ostracizado por aqueles que chamava de amigos.

A escrita se desenvolve junto com Charlie e seus relatórios de progresso se tornam mais evoluídos. Além disso, ele passa a analisar seu passado e seus traumas de uma forma incrivelmente lúcida:

Agora consigo ver de onde vem minha motivação incomum para me tornar inteligente que impressionou a todos a princípio. Era algo com o que Rose Gordon vivia dia e noite. O medo, a culpa e a vergonha por Charlie ser um débil mental. O sonho de que algo poderia ser feito. (pág. 137)

Mas acontece que Algernon parece regredir tão rápido quanto evoluiu e surge a preocupação de que o mesmo aconteça com Charlie.

***

A trama central do livro é sobre inteligência acadêmica versus desenvolvimento emocional. Ao ter seu QI ampliado, Charlie não teve seu desenvolvimento emocional encaminhado da mesma forma. Isso resultou em um homem incrivelmente inteligente, mas que não sabia lidar com mulheres, por exemplo. Ou com as difíceis lembranças de seu passado porque nunca as encarou como adulto antes.

Além disso, quanto mais inteligente Charlie se torna, mais ele se isola de todos os que conhecia. Na padaria, seus amigos eram homens comuns, trabalhadores do dia a dia que, se por um lado riam dele a ponto de humilhá-lo, por outro o faziam se sentir em casa. Na academia, ele ultrapassou os próprios cientistas do experimento, exasperando egos, e não conseguia conversar com eles sobre seus questionamentos porque não entendiam o que Charlie via com clareza.

Em um artigo da BBC de 2015 sobre inteligência de crianças super dotadas, um dos casos mais impressionantes é de uma jovem de 12 anos que é aceita pela Universidade de Oxford mas larga os estudos avançados de matemática para virar garçonete. Ela pode ser qualquer coisa, mas quer uma vida “normal”.

E, mais além, há também a questão do endeusamento da inteligência, de ser vista como o ápice da experiência humana quando deveria ser apenas uma parte dela. Os cientistas do projeto tratam Charlie como um espécime a ser estudado e ele precisa lembrá-los constantemente de que era uma pessoa quando era “burro” e continua sendo uma pessoa agora que é inteligente. É triste que alguém tenha que continuamente reclamar sua humanidade porque não se encaixa nas expectativas dos demais.

O autor trata tudo isso de forma muito sensível e a decisão de colocar os relatórios do ponto de vista de Charlie ajuda o leitor a entender a jornada completa e os impactos de cada etapa.

Para quem não lê ficção científica, que é como o livro é classificado, acredito que é uma boa porta de entrada porque o tom científico é muito leve e bem embebido no livro.

Flores para Algernon, é uma leitura que nos faz repensar o que valorizamos na vida e as coisas das quais abrimos mão para sermos o que outras pessoas esperam de nós.

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2 Comentários em “Resenha – Flores para Algernon”


Vitória em 26.05.2021 às 22:00 Responder

Acabei de ler e por vezes a esperança e angústia de Charlie em ser inteligente e que as pessoas gostassem dele me doeu fisicamente.

Patricia em 26.05.2021 às 22:40 Responder

Sim, é muito bem escrito. A gente sente tudo junto com o Charlie…é muito forte. =(


 

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