Resenha – Forças Especiais
por Juliana Costa Cunha
em 14/10/21

Nota:

Em pleno regime do general Augusto Pinochet no Chile, Diamela Eltit e as demais pessoas do Chile viviam em um regime ditatorial profundo, com toques de recolher e cerceamento das lutas políticas, que se estenderam até 1990. Impossibilitada dessa lutas, Diamela, junto com outros artistas locais, fundou o Colectivo de Acciones de Arte (CADA) e fizeram da arte espaço de luta política. E esta condição permitiu à autora aliar experimentalismo literário a uma contundente crítica política.

Forças especiais é o terceiro livro da autora lançado aqui no Brasil. Fui completamente arrebatada pela potência desse livro. Por tudo o que ele trás de denúncia, experimentalismo e realidade dentro de um contexto absurdamente surreal. Tenho em casa o Jamais o Fogo Nunca, outro título da autora lançado aqui no Brasil também pela Relicário, que, depois dessa minha estreia com a sua escrita pretendo ler o quanto antes. 

Nas minhas pesquisas sobre o livro descobri que Forças Especiais era o nome dado aos carabineiros. Destacamento da polícia chilena, responsável pelas repressões mais pesadas durante a ditadura. E sinceramente, só quando tive conhecimento deste fato, eu alcancei o tanto que ela coloca neste livro.

O livro é narrado por uma menina. Uma adolescente que mora num conjunto habitacional que todas as pessoas conhecem como Bloco. Esses conjuntos são completamente sucateados e vivem em constante vigilância. As pessoas que lá moram vivem sitiadas pelas forças especiais. Todas as famílias vigiadas e em constante agonia. Famílias que veem a polícia invadir suas casas e levar seus entes mais queridos. 

As pessoas, assim como o bloco, estão em demolição. A personagem narradora, junto com mais dois amigos, têm em uma lan house lugar de encontro, fuga e prostituição. O texto é angustiante. Não dá respiro porque as personagens não o tem. E vai ficando mais angustiante com as inserções, no meio de parágrafos, de frases que informam quantidades de armas das mais diversas formas e potências.

A mim foi extremamente angustiante acompanhar as mudanças dos tipos de armas e seus calibres. Das balas e seus calibres. Bombas das mais variadas. Até chegarmos aos gases, também os mais diversos. Numa atmosfera sufocante e angustiante de acordo com os caminhos que cada uma das personagens vai seguindo.

Uma atmosfera que transforma as pessoas em corpos-bloco. Em que não mais se separa a dor, da existência. Eu fiquei sem fôlego em muitas passagens desse livro. E tenho certeza que era essa uma das ideias da autora. Não é livro para ler e sair ilesa. E vale muito a pena passar por essa experiência.

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O livro foi enviado pela editora Relicário

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