Resenha – Garota, mulher, outras
por Patricia
em 28/11/20

Nota:

Apesar de ter escrito diversos livros, Bernadine Evaristo virou um nome discutido no mundo literário em 2019 ao se tornar a primeira negra a vencer o Booker Prize – um dos maiores prêmio da literatura de língua inglesa, estabelecido em 1969. Evaristo dividiu o prêmio com Margaret Atwood que venceu pela sequência de O conto da aia (já resenha por aqui pelo Bruno), Os testamentos, resenhado pelo Bruno e pela Juliana.

Em 2020, Garota, mulher, outras, chegou ao Brasil pela Companhia das Letras. Ou talvez possamos chamar de um retorno de Evaristo ao Brasil – seu avô foi escravo liberto e voltou para a Nigéria onde estabeleceu a família que, eventualmente, imigrou para a Inglaterra.

Este é um livro do seu tempo. Por meio da história de mulheres de diversas idades, Evaristo nos apresenta a uma composição de força e identidade. Cada personagem é conectada à próxima de alguma forma – seja família, seja a professora que ajudou uma aluna carente a se destacar na escola permitindo que ela trilhasse um caminho diferente daquele que aquelas crianças pobres, miscigenadas poderiam estar destinadas.

As doze mulheres britânicas retratadas nos apresentam a todo um espectro de classe, raça, identidade e sexualidade em conversas francas e segredos não revelados que confirmam que cada uma carrega um mundo em si. A jovem Yazz debate raça abertamente com as amigas que são somali, muçulmana e branca na Universidade e compreende que racismo não dá mais conta de explicar tudo o que elas sofrem; Amma e Dominique são abertamente lésbicas e fazem questão de não se esconder causando o desconforto que acham necessário por onde passam; Carole tem ambição de deixar a pobreza em que cresceu para trás e faz o que é necessário para isso; Megan está questionando o que é ser mulher e se é isso mesmo que quer; e assim por diante.

Apesar de permear o livro com importantes questões feministas, Evaristo também não se omite de criar personagens imperfeitas abrindo espaço para discutir, também, que a violência em uma relacionamento também pode existir entre lésbicas; que mulheres também são racistas e classistas; que mulheres podem aceitar derrubar outras mulheres. É daqui que vem a riqueza de cada capítulo.

Garota, mulher, outras é um livro que mistura poesia e prosa no que tem sido chamado de um “gênero híbrido”. A leitura flui tranquilamente e cada parte dedicada à uma personagem quase parece uma obra por si mesma. É uma aula de como contar historias e criar personagem inteiros e complexos em poucas páginas. Um bom exemplo de colocar nas páginas as complexidades de seus personagens é que, nos capítulos dedicados a Megan que luta com sua identidade e se entende não-binário, toda a linguagem do capítulo passa a ser neutra.

Ao unir em uma linha única diferentes gerações, Evaristo também mostra com clareza que cada mulher contribuiu à sua forma para os avanços que vemos hoje. A dona de casa que se recusou a não trabalhar, a primeira mulher na família a pedir o divórcio de um marido que a ameaçou; a primeira mulher negra que colocou a carreira à frente de ter filhos (que não queria). Cada etapa do feminismo, ou talvez da rebeldia feminina, serviram e servem para avançar algo para alguém, ainda que, nem sempre, para as mulheres que executam esses atos. Afinal, a primeira mulher a se divorciar talvez fosse chamada de “puta e desumana”….mas a segunda talvez fosse apenas uma coisa ou outra e a terceira, nenhuma delas.

…Então você precisa conversar com elas, Dom, e devemos comemorar porque muito mais mulheres estão reconfigurando o feminismo e porque o ativismo popular está se espalhando como fogo e milhões de mulheres estão acordando para a possibilidade de tomarem posse do nosso mundo como seres humanos de pleno direito

como podemos ser contra isso?

A opressão se abate sobre todas, mas elas se enxergam e enxergam essa opressão de maneiras diferentes justamente porque experimentam o mundo de maneira diferente. O livro é quase uma carta de amor à interseccionalidade e às diferenças que nos unem mais do que nos separam.

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O livro foi enviado pela editora.

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