Resenha – Grandes Esperanças
por Patricia
em 13/01/14

Nota:

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Grandes esperanças é a história de Pip – um órfão vivendo no campo na pobreza. Ele mora com a irmã e o marido dela, Joe, que é ferreiro e seu melhor amigo. Um menino assustado que vive jogado aos cantos, Pip gosta de passear pelo cemitério local e ler o que entende das frases nos túmulos (sua alfabetização não é das melhores).

Na véspera do Natal de 1812, enquanto faz seu mórbido passeio, Pip encontra um preso que fugiu do navio carcerário (os presos eram levados para a colônia penal na Austrália). O preso ameaça o menino para convencê-lo a trazer algo para comer. Pip rouba alguns itens de casa e entrega-os ao condenado que logo é preso novamente após se envolver em uma briga com outro preso que também havia fugido.

Pip segue sua vida normalmente, com os abusos da irmã e a ajuda de Joe, quando recebe um convite anormal: a Sra. Havisham – uma mulher rica que vivia reclusa em sua mansão na cidade – o chama para uma visita para brincar. Na mansão, Pip vai conhecer um mundo diferente: uma casa cheia de tudo o que ele não conhecia. Mas isso também vem com um preço: a Sra Havisham e sua filha adotiva, a linda Estela, têm uma noção de pobreza diferente. Elas o enxergam como inferior – ou é como ele se sente já que todo o livro é narrado por ele em primeira pessoa. Ele sai da casa arrasado e achando que sua vida é ruim mas compromete-se a voltar na semana seguinte. Mais porque está encantado com Estela do que qualquer outra coisa.

As visitas tornam-se recorrentes e um dia, bruscamente, a Sra. Havisham pede para conhecer Joe. Aqui se encerrariam as visitas de Pip mas ele saiu com uma quantia considerável de agradecimento e a tarefa de tornar-se oficialmente aprendiz na ferraria de Joe.

Ele começa, então, a trabalhar mas não consegue mais evitar os pensamento de que sua vida poderia ser melhor se fosse diferente, se ele tivesse mais dinheiro, mais educação, mais classe. O que antes lhe era o suficiente, agora parece o mínimo.

É nesse momento, me parece, que o título do livro começa a ganhar sentido. Pip cria expectativas enormes para si mesmo. E, para sua alegria, elas se tornam realidade. Ele recebe a visita de um advogado que lhe dá a notícia que todos nós sonhamos em receber na vida (eu, pelo menos, já tenho minha vida de rica planejada): ele herdará uma grande propriedade e vai receber uma educação digna do cavalheiro que deve se tornar.

A partir desse ponto acompanhamos a vida de Pip no lado rico e as reviravoltas de quem precisa lidar com outros tipos de problema.

Entendo o pavor que algumas pessoas têm de clássicos. Muitas vezes, meu temor é simplesmente não entender o que o(a) escritor(a) queria dizer por causa de uma escrita muito rebuscada, ou porque a maneira como ele(a) escreve é demais para mim. Mas posso dizer que Charles Dickens é um escritor que poderia ter existido ontem. Seu livro flui de maneira muito natural, sua escrita é leve e ainda que se utilize de um estilo comum em sua época (e, sim, um pouco rebuscado), o livro não é difícil além de ter momentos divertidos ou, no mínimo, sarcásticos.

O que senti muito, no entanto, é que algumas partes tornaram-se um pouco prolixas. Coisas que poderiam ter sido enxugadas pareceram longas demais. Credito isso a Pip querer se explicar demais sobre algumas de suas atitudes. Como o livro é narrado por ele depois que tudo já aconteceu ele sabe que fez algumas coisas erradas e parece tentar deixar claro suas intenções para aliviar o possível julgamento do leitor.

Pip é malandro mas também é um excelente narrador e sua sinceridade, e certa ingenuidade, permite que o leitor muitas vezes veja nas entrelinhas o que ele não vê (ou não via, na época). A lição do livro é clara, as grandes expectativas de Pip o cegaram para a realidade e quando as coisas não aconteceram como ele esperava, ele não soube como reagir porque vivia nesse mundo que ele criou em sua cabeça. O dinheiro que ele sempre sonhou, lhe trouxe também alguns problemas e mudou a maneira como algumas pessoas reagiam a ele. No fim, a vida que ele pensou que teria quando tivesse dinheiro veio e foi e deixou apenas algumas lições. 

Essencialmente: falta de dinheiro = problemas. Muito dinheiro = problemas. Eike Batista entende. Acho que esse livro traz à tona algo muito humano que é a idéia de que a vida dos outros é sempre mais fácil ou tranquila, que se pudéssemos ter o que o outro tem, tudo seria diferente. E a verdade é que enquanto você gasta dias sonhando com a vida de outra pessoa, a sua própria vida vai passando.

Charles Dickens e filosofia numa 2a feira, você só encontra aqui no Poderoso. Vai vendo! Mas resumindo: um excelente livro para uma leitura calma e tranquila. E para mim, serviu como uma ótma introdução a Dickens. 

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2 Comentários em “Resenha – Grandes Esperanças”


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Paulo em 10.02.2017 às 21:26 Responder

Na verdade Dickens ganhava a vida escrevendo romances que publicava em fascículos. daí a prolixidade, igualmente notada por mim: servia para manter o leitor em suspenso, ansioso pela próxima publicação. Malandro existe em todo o lugar… mas ele, o Velho Charles, era um malandro genial. Acho excelente o “Contos” – edição brasileira de 1973 da antiga Editora Três, com uma boa introdução crítica, infelizmente apócrifa. Como ali informado, Dickens tem o mérito de ter sido o primeiro a escrever sobre a baixa classe média do Séc. XIX, época do “milagre econômico” vitoriano, que – ai de nós – conhecemos tão bem por estas bandas…

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Patricia em 11.02.2017 às 19:13 Responder

Malandro existe em todo lugar…hahahaha…muito bom. 🙂 Anotada a dica de Contos, não sabia sobre essa obra mas vou atrás.


 

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