Resenha – Hibisco roxo
por Patricia
em 05/08/13

Nota:

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E lá vou eu com mais um livro sobre a África. Não consigo me conter….as minhas expectativas têm sido ultrapassadas em anos luz toda vez que peguei um livro de um autor africano até agora. Depois de Angola e Moçambique, vamos para a Nigéria.

Hibisco Roxo nos conta a história de Kambili e sua família. Kambili tem quinze anos e mora na Nigéria mas sua vida é muito diferente do que podemos esperar. Seu pai é um grande capitalista – dono de um jornal e uma fábrica de produtos diversos – e garantiu para ela, seu irmão Jaja e sua mãe, uma vida fora dos padrões locais. Eles têm uma casa própria e grande na cidade, uma casa de verão em outra cidade, motoristas, empregados e tudo aquilo que não condiz necessariamente com o que imaginamos na África para “pessoas comuns”. Na verdade, em qualquer lugar do mundo esse estilo de vida destoa um pouco do comum.

A Nigéria foi colonizada pelo Reino Unido e conseguiu sua independência apenas em 1960. Só que a colonização já estava enraizada muito profundamente e, até hoje, a língua oficial da Nigéria é o inglês. Isso quer dizer que muitos dos costumes locais – considerados tribais – sumiram ou foram afastados da vida cotidiana por aqueles que acreditavam que os colonizadores estavam certos e que ser civilizado significa mesmo falar inglês e fazer coisas “de brancos”.

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O pai de Kambili é um desses homens. Ele recusa-se a falar a língua local, o igbo, e é um católico fervoroso. Ele exige que sua família siga essas mesmas diretrizes, matriculando os filhos em uma das melhores escolas privadas do país – onde todas as aulas são em inglês e levando-os à missa semanalmente. Em alguns momentos ele compara negros e brancos dizendo que os nigerianos têm muito a aprender com o modo como os brancos fazem as coisas. (Ku Klux Klan curtiu essa frase).

E como todo homem acostumado a mandar na casa (um macho de respeito..¬¬), ele tem regras muito específicas de convívio: ou são seguidas ou as coisas são resolvidas na porrada. A mãe raramente passa incólume. Kambili e Jaja já estão acostumados a ouvir a mãe apanhar do pai sem fazer nenhum som e, de vez em quando, ajudam-na a limpar o sangue que fica nos tapetes brancos depois de uma…hum…sessão corretiva.

Por serem extremamente protegidos, Kambili e Jaja não sabem muito bem como vivem os nigerianos que não possuem suas condições econômicas. Claro, eles sabem que o país não é muito desenvolvido, mas como isso se reflete no dia a dia do povo é uma incógnita para eles. Isso acaba quando eles vão passar uma semana na casa da tia – professora universitária e mãe solteira de 3 filhos. A comida é simples, refrigerante é raro, descarga é apenas em momentos específicos e cama não tem para todo mundo.

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Na casa de sua tia, Kambili vai, pela primeira vez na vida, conhecer a Nigéria de verdade e aprender que questionar, duvidar e não gostar não são características de uma pecadora como seu pai lhe diz. Ela amadurece em uma semana o que não conseguiu em 15 anos. O livro trata muito do crescimento dela e de como certas experiências começam a moldar uma mente acostumada a ser dominada por outra.

A escrita de Chimamanda é muito suave. Ela escreve de maneira muito orgânica, parece que a história saiu sem esforço nenhum.  O recurso de utilizar palavras locais nos aproxima do contexto – ainda que não seja possível entender sempre o significado (algo que vimos também no texto de Mia Couto). Ela não passa muito tempo descrevendo nada – talvez porque a pobreza é similar em qualquer lugar do mundo ou porque ela realmente não queira reforçar alguns estereótipos que já conhecemos sobre a África. Sobre isso, deixo essa palestra sensacional que ela fez para o Ted onde ela fala muito claramente sobre se evitar julgar conhecer uma história sabendo apenas um lado da questão.

A forma como o pai de Kambili destrói sua família em nome do catolicismo é uma bela metáfora para como o catolicismo acabou com costumes tribais na Nigéria criando uma país com uma crise de identidade forte entre as gerações. Pais tradicionalistas quer mantinham seus costumes locais afastaram-se das crenças ocidentais de seus filhos colonizados.

É um livro cheio de emoções diferentes que, muitas vezes, aparecem ao mesmo tempo. Raiva e compaixão são constantes. Mais uma experiência totalmente válida de literatura africana de qualidade e uma impressionante estréia da autora.

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5 Comentários em “Resenha – Hibisco roxo”


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Zaida Adriano em 11.09.2014 às 08:19 Responder

Alo, só a pouco “descobri” a Chimamanda e mal consigo me conter para puder ler os seus livros.
Obrigada pelo resumo

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Paty em 11.09.2014 às 10:15 Responder

Estou na caça dos demais livros dela também. Ansiosa demais para a chegada do “Americana”. 😀 Parece que é ainda melhor que Hibisco. Veremos.

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Maria Ferreira em 18.06.2015 às 18:57 Responder

Já lo os outros livros dela e possui afirmar que ela só evolui.
Essas livro me causou um misto de sentimentos, entre eles raiva, compaixão, revolta… Gostei bastante, apesar do final ter me decepcionado um pouco.

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Patricia em 18.06.2015 às 19:03 Responder

Sim, concordo sobre o final.
Estou com o Americanah em mãos e quero ler ainda esse ano. Ouvi coisas ótimas sobre ele. 🙂

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Maria Jose da Silva em 22.06.2019 às 20:15 Responder

Amei esse livro.Ele é uma mistura de situações conflitantes.Patriarcalismo, aculturação, violência, etc.Ótimo livro.


 

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