Resenha – Hilda Hilst – Da Prosa
por Juliana Costa Cunha
em 18/12/18

Nota:

Quando comecei a ler a prosa de Hilda tive várias ideias para fazer esta resenha. Pensei: “vou escrever uma resenha para cada volume”. Depois, sendo mais ousada pensei: “vou escrever uma resenha para cada livro deste box”. Depois, ainda, pensei: “farei duas resenhas. uma para cada volume e nelas faço um resumo de cada livro”.

Terminei a leitura e demorei pra conseguir começar a escrever qualquer coisa aqui. Todos os pensamentos que tive sobre como escrever esta resenha foram por água abaixo. Não vai rolar de nenhuma das formas que citei acima. Não conseguiria. Não me atrevo. Deixo isso pra meu amigo Caio Lima que já tem textos belíssimos no seu Rede de Intrigas.

O que tenho para falar a vocês aqui é sobre a minha experiência de ler Hilda Hilst, de forma cronológica e cadenciada – li praticamente um livro após o outro. Exceto os considerados textos pornográficos – O Caderno rosa de Lori Lamby, Contos D’escárnio e Cartas de um sedutor – que já havia lido ano passado e, nesse caso, não reli agora.

Primeiro queria dizer que essa edição da Companhia das Letras é bem bacana. A edição é bem bonita e boa de manusear. Ao final do volume dois, temos três textos que dão pistas sobre a obra de Hilda e também falam das impressões de seus autores sobre a experiência de ler Hilda. São bem bacanas! Os textos são de:

Alcir Pécora – Cinco pistas para a prosa de Hilda Hilst

Carola Saavedra – A palavra deslumbrante de Hilda Hilst

Daniel Galera – Um grande pudim de cenoura

Bom, dito isso vamos ver o que consigo escrever.

Dizer que não sei como escrever não é recurso para impressionar (hahaha), mas a mais pura verdade. Ler Hilda foi uma das experiências de leitura mais viscerais que já tive. Para ler Hilda, sinceramente, acho que precisamos ter bagagem literária (o texto do Galera aponta pra isso). Para além de todos os temas que são abordados em sua obra, nos deparamos com várias formas de narrativa, muitas vezes misturadas no mesmo texto.

Não saberia dizer se o que eu li foi conto, romance ou novela. O Box tem o título de Prosa, né? Então deve ser isso. E não falo isso com desdém. Muito pelo contrário. É porque penso que mesmo para os estudiosos da autora deve ser muito difícil classificar sua obra. Seus textos são visuais. Muitas e muitas vezes ao ler me sentia lendo uma peça de teatro e visualizando cenas. A narrativa livre da autora nos coloca frente a frente com seu incrível fluxo de consciência, num caleidoscópio que impressiona.

Se é prosa, é uma prosa anárquica. É pura anarquia literária. E ao lê-la, em várias passagens achei que ela usava a prosa como forma de pensar a poesia. Que aliás aparece muito nos textos destes livros. Outra coisa que aparece em seus textos são personagens que tem nomes “esquisitos” e que começam com H. Mais do que nunca, penso que a obra de Hilda é absurdamente autobiográfica. Na sua poesia como na sua prosa está a sua vida. Suas dores e suas delícias. E o seu pai. Ou a falta de seu pai e toda a idealização que ela faz dele. Apolônio, que era jornalista, poeta e esquizofrênico. Que passou sua vida internado em hospital psiquiátrico e com quem Hilda teve pouquíssimo contato. Sua obra parece ser toda escrita para ele.

Com a “presença” do pai em sua obra, o tema da loucura é recorrente. Todos os livros abordam essa questão. Assim como, para mim, todos os livros abordam o obsceno e não apenas os livros ditos pornográficos. Outra temática que está em tudo é a relação entre o sagrado e o profano. Loucura, obscenidade, sagrado e profano permeiam as obras de Hilda Hilst.  AH! E tem também a questão das personagens narradoras dos livros. O que dizer de um unicórnio narrador?

Penso que, para ler Hilda precisamos nos despir de preconceitos e questionamentos com o que está sendo contado. Às vezes é tão bestial e escatológico que só pensava que ela estava rindo da minha cara naquele exato momento. Parece que ela fez de propósito. Milimetricamente de propósito para nos chocar. E ficou o tempo todo rindo disso. E daí, quando ela resolveu escrever os famosos textos pornográficos, foi como se dissesse “Ô bando de bestas, deixa eu confundir vocês mais ainda!”

Hilda era genial, gostemos ou não. E ponto.

***

Livro enviado pela editora

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