Resenha – História social do LSD no Brasil
por Juliana Costa Cunha
em 13/10/20

Nota:

Em 1943 o suíço Albert Hofmann, meio que por acaso, descobriu o LSD e começou a estudar seus efeitos. Não por acaso Hofmann trabalhava em um laboratório farmacêutico, o Sandoz, que, para efeito de testes e estudos, passou a fornecer doses puras da substância a profissionais que tivessem interesse e estudá-la, sendo a substância ainda encarada unicamente para efeitos medicinais.

Este é um dos percursos que o livro de Júlio Delmanto percorre: o surgimento do LSD e as primeiras experiências lisérgicas pelo mundo. Com essa massiva distribuição feita pelo laboratório o LSD chega ao Brasil e é utilizado por psicólogos e psiquiatras do Rio e de São Paulo em sessões de uso e análise de seus efeitos e percepções por que a experimentava.

Essa cena, em princípio, era basicamente formada pela classe média e alta carioca e paulistana. E, mais especificamente, por artistas das mais diferentes expressões, porém com viés da contracultura e do underground como pano de fundo de suas artes e vivências.

Os dois primeiros capítulos do livro nos apresentam exatamente a efervescência cultural do final dos anos 60 e início dos 70. A contracultura nos EUA; o uso do ácido por artistas, comunidades hippies como fonte de inspiração e conhecimento de si mesmos.

No Brasil, a contracultura vai se expressar através do tropicalismo, das comunidades hippies e da cena underground paulistana. São diversas as figuras de nossa cena artística desta época que vão aparecendo ao longo das páginas escritas por Delmanto. O poeta paulistano Roberto Piva, por exemplo, tem obras inteiras dedicadas a essas suas experiências com ácido e é um dos expoentes dessa cena paulistana. Cena esta que tem atenção especial no livro.

Importante dizer, inclusive, que a capa (arte de Bianca Oliveira) do livro é uma referência à descrição feita por Roberto Piva, que fez uso de ácido assistido por médico diversas vezes, de sua primeira viagem lisérgica na serra da Cantareira.

“Fomos em dois carros, junto com outras pessoas que também tomaram a droga. Lá, eu entrei no meio do mato e repentinamente, quando bateu o ácido, olhei para o sol e vi como se fosse uma grande tangerina gotejando amor para o universo”

O livro é recheado de entrevistas e fontes documentais, explicitando o cuidado do autor com a pesquisa realizada. Na verdade o livro História social do LSD no Brasil é a tese do autor, defendida na USP. Em princípio Delmando tinha a ideia de se aprofundar na questão da contracultura e o uso das drogas. Mas, em dado momento de suas pesquisas, se deparou com um material que o fez mudar o rumo da pesquisa.

Esse material era o livro Os alucinógenos e o direito: LSD, de Geraldo Gomes, juiz responsável pelo primeiro processo judicial envolvendo trafico de drogas, nesse aso específico LSD, no Brasil. O livro apresentava figuras importantes da cena cultural da época e, em especial, Antônio Peticov (alvo principal do processo), e Osmar Ludovico. Com esse encontro do autor e esta parte da história do LSD no Brasil, adentramos então no terceiro e quarto capítulos do livro, no qual Delmanto nos narra como essas pessoas passaram a ter acesso ao ácido e posteriormente a comercializá-lo.

São nesses dois capítulos que passamos a compreender as mudanças no mundo com relação ao uso das drogas e seu processo de criminalização. As interferências políticas no processo. Lembrando sempre que aqui no Brasil vivíamos uma ditadura. Que as pessoas era vigiadas. E que sendo elas detidas por uso de entorpecentes foram torturadas e personagem de processos muitas vezes desencontrados e sem conhecimento sobre o tema por quem fazia a acareação.

Não é de estranhar também quem em várias passagens o processo oficial diverge da fala das pessoas envolvidas e entrevistadas por Delmanto. Outro interlocutor na pesquisa feita pelo autor é a mídia brasileira da época e como a mesma noticiava a questão das drogas como um todo e, em específico, o processo que estava rolando.

As considerações finais do livro trazem uma narrativa mais acadêmica do autor, abordando os percursos feitos na pesquisa e a escolha da metodologia adotada e da definição do foco da pesquisa. É nesse trecho inclusive que Delmanto argumenta que poderia também ter enveredado na discussão de raça e gênero, mas considerou que não teria fôlego para tanto.

Esse livro é uma pesquisa muito cuidadosa feita pelo autor. Que tenta trazer um panorama real dos acontecimento, baseada na narrativa de quem a vivenciou e documentou. É um livro pra quem quer entender mais os caminhos da criminalização das drogas no Brasil e o uso que se faz disso. É livro com visão antiproibicionista para abrir mais possibilidades de conhecimento e diálogo sobre a questão.

***

Livro enviado pela editora.

Postado em: Resenhas
Tags: , ,

Nenhum comentário em “Resenha – História social do LSD no Brasil”


 

Comentar