Resenha – Histórias e Conversas de Mulher
por Patricia
em 02/09/14

Nota:

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Em Fevereiro desse ano, comentei sobre um livro que andou causando certa polêmica no mundo corporativo graças a seu chamado às mulheres para que sentem-se à mesa com os homens na hora da reunião (e participem!). Em Faça Acontecer, Sheryl Sandberg comenta diversos momentos de sua própria carreira em que teve que fazer escolhas duras e enfrentar um mercado pautado pelo masculino. O livro me surpreendeu porque vai muito além do papo “problemas no escritório”, tocando  na questão de luta feminina de maneira muito mais profunda.

Esse, como vocês devem ter notado, é um assunto que me interessa muito não apenas por ser mulher, mas por ter ao meu redor mulheres incríveis que quero que sejam bem tratadas e que recebam o que merecem com justiça. Desde que terminei o livro de Sandberg, andei procurando mais alguns que tratassem de assuntos similares para trazer aqui para o Poderoso.

Saindo da esfera profissional, “Histórias e conversas de mulher” vai tratar de alguns assuntos que são atribuídos a rodinhas de mulheres. Costuma-se pensar que mulher só fala de 3 coisas, ou prioritariamente dessas coisas: casamento, filhos e neuroses com o corpo. Não sei se preciso dizer como isso é ridículo, mas vamos enfatizar: isso é ridículo.

Nesse livro, Mary del Priore, que é especialista em História do Brasil, nos apresenta esses 3 assuntos supracitados no contexto histórico. Ponto a ponto, a historiadora nos leva por um passeio sensacional pelas questões sobre casamento e como isso foi mudando com a evolução de comportamento feminino até chegarmos na fatídica geração dos anos 80 – aquela geração educada para ser mocinha casada e uma grande dona de casa, mas que olhava para um mundo que já pedia espaço para mulheres no ambiente de trabalho e exigia novas maneiras de pensar a situação casa-profissão. Essa foi a geração que começou uma quebra de paradigma importante na nossa sociedade.

No tema filhos, temos algumas revelações um tanto quanto deprimentes. Primeiro que as mulheres que não tinham filhos, eram consideradas inferiores. Não bastava ser casada, você tinha que ter uma prole, provar que era fértil, que podia dar a seu marido a continuidade da linhagem (também conhecido como ‘um dos argumentos mais imbecis para se ter um filho’). A autora cita o exemplo da Imperatriz Leopoldina que em 9 anos, engravidou 9 vezes. Quando uma sinhá engravidava, ocorria diversas vezes de comprarem uma escrava para amamentar a criança. Muitas dessas escravas, eram obrigadas a deixar seus próprios filhos para a fome enquanto cuidavam de crianças brancas de pais ricos. Como a grande Elza Soares diz, que a carne negra é a mais barata do mercado. Há tempos.

O paralelo que a autora traça entre maternidade e conquistas femininas no trabalho é, para mim, a questão central do livro. Esse é um dos assuntos que mais me interessam não porque eu pretendo ter filhos – até o presente momento, aos 27 anos, não tenho a mínima vontade – mas realmente me interessa saber como as mulheres conseguem fazer família e maternidade funcionarem de maneira harmônica. Me parece uma atividade digna de Hércules. A verdade é que tudo isso seria mais fácil se o modelo de trabalho antes focado no masculino, mudasse. Antigamente, como os homens não eram os principais responsáveis pelos filhos, esperava-se que ele se dedicasse exclusivamente ao trabalho. Hoje, espera-se o mesmo da mulher que decide seguir carreira. Mas claro que é uma expectativa injusta para ambos os lados.

Não é nada novo o papel da mulher na sociedade, isso é o que podemos tirar do livro com muita facilidade. Ser mãe e esposa é algo tão forte na cabeça de certas mulheres que, sem isso, elas sentem que não têm propósito na vida, ainda que algumas nunca tenham uma carreira. Porém, cada vez mais mulheres começam a desafiar essa lógica. E mais e mais vezes são chamadas de muitas coisas, entre elas: encalhada, egoísta (por que não querer ter filhos), vaidosa, desajustada, gananciosa (por manter o foco na carreira), solteirona (no mal sentido) e outras coisas desagradáveis.

A terceira parte do livro é destinada aos imbróglios da definição de beleza e como ela evoluiu de gordinha a magreza extrema graças em grande parte ao nascimento do cinema. Com a ditadura da beleza criou também toda uma indústria pronta para deixar a mulher mais “digna”, no que se devia entender mais “bonita”.

No geral, o livro trata de apenas três temas, mas tem conteúdo para levantar conversas para muito além. Mary Del Priore é uma autora objetiva, sem se estender demais e pontua muito bem os assuntos com estatísticas e diversas referências que é para não deixar dúvida do que estamos lendo.

Bom livro para discutir com as amigas entre troca de receitas e enquanto define-se qual o melhor tom de batom para usar.

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