Resenha – Hitch – 22
por Patricia
em 04/11/13

Nota:

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Hitchens é um dos ateus mais famosos do mundo. Para quem gosta do assunto, é possível encontrar diversos vídeos dele debatendo esse e outros temas como política externa – outra de suas especialidades. Conhecido por nunca fugir de uma polêmica, Hitchens parecia se convidar para quebrar paradigmas sobre os quais as pessoas não queriam nem pensar.

Só para dar uma idéia, um de seus livros mais controversos é intitulado: Deus não é grande – Como a religião envenena tudo; e junto com Richard Dawkins, Sam Harris e Daniel Dennett, ele forma o que muitos chamam de Os cavaleiros do ateísmo.

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Pois bem. Já disse em outras ocasiões que me divirto lendo sobre a vida de pessoas que admiro. Assim, quando descobri que antes de morrer de câncer, Hitchens havia deixado uma autobiografia, fui atrás. Como sempre acontece quando temos contato com as palavras das próprias pessoas, descobrimos que, no fundo, há muito pouco que sabemos sobre o que cada um passa em seus momentos mais escuros.

Formado em Oxford, apesar das limitações financeiras de seus pais, Hitchens trabalhou como jornalista em zonas de conflito e como crítico literário e editor.

Aos 24 anos, quando a Grécia passava por uma crise intensa que resultou em uma ditadura militar (1967), Hitchens teve que ir a Atenas por um motivo terrível: sua mãe, que estava decidida a abandonar seu pai, foi assassinada pelo amante – ou era o que parecia à primeira vista. Analisando melhor, descobrem que ela e o amante tinham um pacto suicida. Hitchens começa a buscar informações sobre o assunto em estudos de pesquisadores e sociólogos renomados. Essa é uma das melhores características de Hitchens: talvez por sua base como jornalista, tudo o que ele não sabe, ele pesquisa profunda e exaustivamente antes de formar uma frase sequer sobre o assunto. Por isso, quando tem algo a dizer sobre qualquer assunto sabemos que, no mínimo, sua opinião é bem embasada.

Isso é fácil de perceber quando vemos os debates nos quais ele se envolveu ao longo da vida (muitos estão disponíveis na íntegra no youtube).

Hitchens nos apresenta também a seu pai – Comandante da Marinha Britânica que lutou na 2a Guerra Mundial e acabou sendo obrigado a aceitar empregos pequenos para se manter pois quanto maior a patente e mais lutas no cv, menor era o soldo (ah, a justiça militar…). Conservador, ele pacificamente aceitou tudo o que a vida lhe jogou: um Governo e uma esposa que o abandonaram, por exemplo, resignando-se a deixar as coisas de lado.

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Hitchens é brutalmente sincero sobre outros aspectos de sua vida, inclusive sua primeira experiência homossexual quando aluno de um internato só para meninos. As partes mais interessantes, no entanto, são aquelas que nos permitem entender como ele começou a formar suas posições políticas e definir suas causas. Nesse livro, Hitchens descreve suas opiniões políticas e as classifica (esquerda marxista, ultra esquerda e etc) no contexto da situação.

Ainda assim, esse é um livro que tem passagens que podem ser um pouco arrastadas. Ele comenta sobre muitas pessoas que o influenciaram e, para mim, algumas eram desconhecidas e essas partes não eram tão interessantes quanto as demais. Mas é um gosto pessoal. O que é forte nesse livro é o contexto da vida de Hitchens de luta política, conhecimento do mundo e uma constante fonte de pensamentos sobre os acontecimentos mais tensos que, infelizmente, ainda se repetem. O livro é quase uma aula de História com o viés político afinado de Hitchens. Ele deixa muito de sua vida pessoal de lado para tratar do que ele pensa, já que, esse exercício era o resumo de sua existência.

Para quem não se interessa por política ou pelo debate religioso, o livro poderá ser uma fonte enorme de frustração. Mas para quem, como eu, se diverte com esses assuntos, pode ser um prato cheio: um mergulho em uma das mentes mais afinadas de nossos tempos.

A edição do livro é uma tristeza. Parece algo feito no quintal da gráfica. Hitchens merecia mais. Para sorte da Nova Fronteira, o conteúdo ultrapassa, e muito, em questão de qualidade.

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