Resenha – House of Cards (Livro X Série)
por Patricia
em 11/05/15

Nota:

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Quem me conhece sabe que ando fissurada na série House of Cards do Netflix (o Gabriel, que vergonhosamente ainda não viu todas as temporadas, falou da série aqui). Fiz maratonas para matar todos os capítulos à medida que as temporadas eram liberadas. Com atuações magistrais e um enredo que beira a realidade deprimente da política dos Estados Unidos (e traduz muito bem a política geral), a série é um prato quente para quem curte o tema – os political junkies – como eu.

Assisti a primeira temporada sem saber que a série havia sido adaptada de um livro homônimo de Michael Dobbs porque o livro ainda não tinha sido lançado no Brasil em 2013, quando a série estreou. Originalmente, o livro foi lançado em 1989 no Reino Unido e adaptado como minissérie para a televisão britânica no ano seguinte.

Há diferenças interessantes entre o livro de 1989 e o que vemos na série atual é, mais do que uma resenha específica do livro, resolvi fazer essa comparação entre um e outro.

O enredo do livro gira em torno de um único personagem: Francis Urquhart (alterado para Underwood na série). Francis é um  político ganancioso disposto a tudo para alcançar sua visão de poder. No livro, acompanhamos seus esquemas posando de bom garoto para a mídia enquanto usa de artimanhas das mais escusas para derrubar um por um de seus adversários – quer estejam no mesmo partido ou não. A essência do personagem no livro e na série é a mesma: Underwood segue a mesma linha amoral, cínica e inescrupulosa.

Uma das grandes diferenças, porém, é a esposa de Francis. No livro, Mortima mal aparece. O autor nos dá algumas dicas sobre a maneira como ela apóia o marido, mas nada é escancarado. Ela aparece tão pouco que mal notei sua presença. Já na série, Claire Underwood é uma força por si só. Além de ser uma presença intensa, ela carrega seu próprio enredo e complementa de maneira excepcional o que falta ao marido. Se por trás de todo homem existe uma grande mulher, quando se trata dos Underwood, Claire prova que ela é grande parte da força que os empurra para cima.

Essa mudança é a mais significativa do enredo. E é compreensível que em 25 anos a personagem feminina que antes mal aparecia, hoje chega a roubar a cena (se você viu a última temporada, sabe do que estou falando). A adaptação do Netflix reflete não apenas a política, mas a sociedade atual. Hoje, mulheres não ficam mais nos bastidores e não precisam mais fingir que apenas apoiam seus maridos políticos como cones humanos posando para fotos organizadas para vender uma imagem muito específica. Hoje, mais do que nunca, as mulheres fazem política. Beau Willimom, roteirista da série para o Netflix, espertamente, mudou esse pequeno detalhe do enredo que, no fim, deu mais força ainda para a adaptação e rendeu cenas espetaculares entre marido e mulher.

Dobbs, o autor da obra original, sabe do que fala quando nos mostra o lado feio da política: ele participou por 2 anos do governo Thatcher e foi membro do partido conservador da Grã-Bretanha na década de 90. O livro gira em torno de um personagem desse partido. Na adaptação, porém, Underwood é democrata graças à releitura de Willimon que trabalhou para figuras como Hilary Clinton (que concorrerá para Presidência dos EUA pelos democratas).

Em mais uma adaptação bem feita do enredo original, Underwood é democrata, mas vem de um Estado historicamente republicano – South Carolina – e de uma cidade que tem uma estrutura basicamente rural. É uma adaptação interessante do aristocrata Urquhart e muito mais representativa da democracia norte-americana. Isso torna Underwood muito mais palatável não apenas para o público americano, mas para todos os que acreditam que democracia quer dizer, em última instância, que qualquer um pode participar da política.

Mas não se preocupe se você não é o tipo de pessoa que gosta de séries com essa temática normalmente. O livro, por exemplo, é fácil de acompanhar ainda que retrate os trâmites políticos do Reino Unido que são desconhecidos para nós. O que tiramos do livro é a essência do personagem e da política como um todo. Dobbs faz um excelente trabalho em traduzir os pormenores sujos do dia a dia da política para uma obra que consegue atingir o público leigo ou que conhece menos sobre esses bastidores.

O livro rende uma boa leitura, entretém e mantém o leitor preso em cada palavra. Mas é a série, para mim, o grande resultado da criação de Dobbs. O livro é realmente bom, mas não é nada comparado com o que o Netflix fez com a história. No fim, dei quatro doses de café porque reconheço que o livro é a origem de tudo e, como expliquei, a essência do personagem está aqui.

Leia a o livro talvez, mas definitivamente assista a série. É uma aula tanto de interpretação quanto de como realmente adaptar uma obra antiga com as nuances da sociedade atual.

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1 Comentário em “Resenha – House of Cards (Livro X Série)”


O Poderoso Resumão » Arquivo » Revisitando – Jogo de Poder em 05.08.2015 às 12:07 Responder

[…] mais de 10 anos. A postura da administração federal americana à época faz os personagens de House of Cards parecerem muito familiares e o clima de conspiração é presente por toda a narrativa. É com […]


 

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