Resenha – Hunger makes me a modern girl: a memoir
por Bruno Lisboa
em 18/01/16

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A geração mais nova talvez associe o nome de Carrie Brownstein como a atriz da elogiada série televisiva Portlandia. Buscando, possivelmente, desvencilhar a imagem de comediante, Brownstein lançou em 2015 a sua aguardada autobiografia. Em Hunger makes me a modern girl a autora vocifera todas as batalhas que enfrentou desde criança e que ajudaram a torná-la no ícone musical feminista que também lhe diz respeito.

Partindo de sua infância, Brownstein comenta sobre períodos conturbados em que viveu durante os anos em que seus pais foram casados, tempos dominados por solidão, silêncio e visitas constantes ao hospital (sua mãe sofria de anorexia) e a homossexualidade velada de seu pai. Somente com a separação Carrie (então com 14 anos) começou a se descobrir e a entender o mundo a seu redor.

Nos capítulos iniciais da obra a autora comenta com ternura os tempos em que admirava artistas dos anos 80 como Duran Duran e Madonna. A partir desta relação como fã, a música cumpriu papel fundamental, pois preencheu lacunas que um lar destruído não poderiam suprir. Daí para a entrada para o universo dos musicistas era inevitável.

Após inúmeras bandas, formações e suas primeiras composições, Brownstein entrou para aquele que seria um dos grupos de punk rock mais celebrados dos últimos tempos e foco deste livro: o Sleater Kinney. Tida como uma das mais importantes bandas dos anos 90, o trio então formado por Corin Tucker (guitarrista, ex-Heavens to Betsy), Laura McFarlane (bateria) e a própria Carrie assumindo a outra guitarra (não havia espaço para outros instrumentos, como o baixo) adotava uma proposta inovadora, ensurdecedora, veloz e com performances eletrizantes.

Como parte integrante do movimento riot grrl (para conhecer mais é recomendável a leitura de Girls to the front, livro de Sara Marcus), a banda foi responsável por agitar o underground norte-americano da época, graças a uma sólida cena musical formada na efervescente cidade de Olympia (Washington D.C.), por bandas como o Bikini Kill que bradaram bandeiras em prol do feminismo. Como pioneiras desta seara ao longo do livro a autora destrincha todas as dificuldades de ser um artista independente, com parcos recursos e apoio em geral, num mundo machista e dominado por velhos preconceitos.

Vencidas as dificuldades dos primeiros anos, o trio consegue se consolidar, estabelece a formação que permanece até hoje (vide a troca de bateristas com a entrada de Janet Weiss) e cria uma discografia respeitável, com discos marcantes como Dig me out e Call the doctor, que até hoje permanecem como clássicos. A banda ao longo de sua carreira soube se reinventar e tamanha dedicação a levou ao mainstream conquistando merecidamente grande parte da imprensa, como também a benção de gigantes do rock como o Pearl Jam, com quem realizaram uma longa turnê em 2003.

Para além da música, Brownstein fala abertamente sobre seus problemas de saúde (que quase causaram o fim de sua carreira), sua sexualidade (ela é assumidamente gay), sua amizade com suas companheiras de banda e a necessidade da mesma, sua paixão por cães e gatos de estimação como também seu trabalho voluntário num abrigo de animais.

O Sleater Kinney encerrou as atividades em 2005, de maneira amigável, e voltou às atividades uma década depois com o ótimo No cities to love. Neste hiato, Carrie dedicou suas atenções a carreira de atriz e a uma nova banda (o Wild Flag), mas ambos os temas surgem de maneira discreta na obra. Apesar desta lamentável ausência Hunger makes me a modern girl é um delicioso e mordaz (tal como as canções de sua banda) retrato de como é a árdua luta pela sobrevivência, no embate diário que enfrentamos na busca por nós mesmos e por tentar fazer deste mundo algo melhor.

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2 Comentários em “Resenha – Hunger makes me a modern girl: a memoir”


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Denise em 18.01.2016 às 13:06 Responder

estou lendo “a duras penas” (pois trupico no inglês, rs), mas estou achando muito bom, ela tem um humor muito peculiar…

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Bruno Lisboa em 19.01.2016 às 12:43 Responder

Realmente ela é muito engraçada. E por isso Portlandia é tão engraçado e original.


 

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