Resenha – Iaiá Garcia
por Patricia
em 09/10/13

Nota:

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Machado de Assis é meu autor nacional preferido. Eu sou do time Brás Cubas mas gosto de Machado em qualquer sabor, na verdade. Iaiá Garcia faz parte da fase romântica de Machado e foi o último livro dessa fase dele, publicado em 1878 quando o Brasil ainda se recuperava da Guerra do Paraguai (1864 – 1870).

Mas vamos ao enredo: Luis Garcia é uma pessoa pacata. O tipo de pai que quer dar tudo para a filha. Lina – apelidada carinhosamente de Iaiá – é resultado de um casamento com uma mulher bondosa e dedicada. Luis esperava que sua filha tivesse herdado esses bons traços da mãe. Ele é um bom homem e quando sua amiga Valéria o chama às pressas para lhe pedir um favor, ele é desses que correm para ajudar.

Ainda que Valéria não tenha ótimas intenções: ela que a ajuda de Garcia para convencer seu filho – Jorge – a ir para a Guerra do Paraguai. E ela queria isso para evitar que seu filho mantivesse um relacionamento com uma mulher local. Ela prefere que o filho vá para a guerra (que os aliados perdiam, aliás) do que namorar certa mocinha. É de doer.

Luis Garcia e Jorge viram amigos mas Jorge nunca confidencia por quem está apaixonado. No entanto, o leitor logo descobre: Estella – uma jovem que passou um tempo na casa da Valéria e por quem a viúva se afeiçoou rapidamente. Jorge chegou a se declarar para Estella mas acreditando que Valéria não ficaria feliz com essa união, a moça colocou sua amizade com a mãe do rapaz em primeiro lugar e rejeitou-o apesar de também gostar dele.

Jorge, desolado, vai para a Guerra e lá mantém correspondência com a mãe e seu amigo Luis Garcia. Aqui entra o charme manipulador da pequena Iaiá. Ela frequenta a casa de Valéria e gosta muito de Estella. Tanto que começa a falar sobre um possível casamento entre seu pai e Estella. Infelizmente para Jorge, o casamento acontece. Drama para todos os lados.

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Iaiá não é bem uma menina simpática. Ela é manipuladora e caprichosa – extremamente ciumenta, ela começa a ter raiva de Jorge quando vê a amizade que ele tem com seu pai. Quando Luis Garcia fica doente, Jorge o visita sempre que pode, já que são amigos de longa data. Iaiá parece ter uma sensibilidade profunda para segredos que ninguém quer revelar e percebe que Estela e Jorge têm algum tipo de ligação.

A menina não é fácil e acaba torturando as pessoas com perguntas hipotéticas. Ela não é uma personagem criada para que o leitor goste dela. Pelo contrário, quanto mais se lê o livro, mais chata ela se torna. Ela muda seu comportamento à medida que seus interesses mudam também.

Para quem gostaria de saber como a sociedade era organizada na época, Machado é uma ótima escolha. Ele sabe caracterizar os personagens de uma maneira certeira para que todos acabem nos passando a imagem do que ocorria então. Em Iaiá Garcia o que temos são casamentos arranjados, dotes e interesses acima de amores. Aliás, aqui temos também um pouco de romance entre classes já que Jorge é um rapaz rico e se apaixona por Estela, que é pobre e não sente-se digna de casar com ele.

Machado é conhecido por utilizar um humor ácido na maneira como descreve personagens e em Iaiá Garcia não é diferente ainda que não esteja presente constantemente. Ele descreve Eulália, a possível noive de Jorge (se dependesse de sua mãe), como alguém que “tinha dezenove anos na certidão de batismo e trinta no cérebro.”

A leitura do livro é tranquila. Mesmo com a linguagem mais antiga e rebuscada, nada se perde do conteúdo. Aliás, Machado de Assis é uma aula de como criar personagens profundas o suficiente para a história e superficiais na medida certa para conduzirem o enredo sem  pesar. Esse é um livro que merece ser degustado ainda que não seja uma obra prima do autor.

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