Resenha – Infiel
por Gabriel
em 09/05/15

Nota:

Infiel

Meu ano de leitura de mulheres trouxe uma curiosa seleção de livros escritos sobre o islamismo ou sobre suas influências mais nefastas nas vidas femininas. As sociedades baseadas no islã têm tradicionalmente reprimido os direitos da mulher, o que as torna objetos anacrônicos frente às sociedades contemporâneas e gera relatos estarrecedores como esse.

Ao escrever esta resenha logo após o fim do livro, me sinto com certo receio de dizer algumas coisas, sob a influência da leitura da perseguição sofrida por Hirsi Ali em seus últimos tempos na Holanda. A autora desta autobiografia nasceu na Somália, cresceu entre este país, o Quênia e a Arábia Saudita, e o acaso a levou à Holanda em sua vida adulta. É essa história que ela conta, até o ano em que deixou a Holanda e se mudou para os Estados Unidos.

Ayaan Hirsi Ali nasceu na Somália muçulmana e por isso passou por momentos tenebrosos. Muitas mulheres no país sofrem mutilação genital, a chamada clitorectomia, feita por seus pais ou irmãos dentro de suas próprias casas. Ayaan foi mais uma delas, bem como sua irmã. E, para ambas, a experiência definiria suas vidas. A descrição da autora, que passa pelo episódio de forma tão rápida quanto ele realmente ocorreu, choca por vir sem aviso. Isso reforça no leitor a impressão de absurdo de um terror que acontece todos os dias e é ignorado por grande parte das pessoas.

Apesar de ser um fato marcante que define a personagem principal, a clitorectomia não é o único momento tenso do livro. Ayaan passa por muitos outros pontos em que sua vida é ameaçada e sua convicção de se opor ao islamismo vai sendo construída. Ao iniciar sua carreira política na Holanda, já tem uma pauta muito clara de libertação das mulheres em relação ao islã. E é essa combatividade que a condena a sofrer ainda mais.

Infiel tem um texto bem escrito e de prosa simples de ler. O tom da autora muda de forma muito interessante entre o começo da obra, em que ela descreve momentos de sua infância, de memória mais distante e talvez de cabeça menos cheia, e a parte final, em que ela se torna uma adulta que luta por uma causa. É um livro que li em relativamente pouco tempo, apesar de suas 500 páginas. E que mostra de uma forma muito crua e clara a vida de uma mulher muçulmana, com tudo o que isso implica em termos de prisões físicas e mentais de outras pessoas e da própria mulher, envolta em sua doutrina.

Esta não é uma obra para quem não tem estômago. Mas deveria sim ser uma obra básica para se entender o que está em jogo em uma das questões mais importantes do século XXI.

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