Resenha – Jane Eyre
por Patricia
em 09/04/14

Nota:

jane eyre

Mais um clássico que me propus a ler esse ano e mais um livro que entra no projeto #LeiaMulheres2014 que, aliás, estou adorando.

Jane Eyre é a história da órfã Jane de 10 anos que mora com a tia e os terríveis filhos da mesma. Acolhida pelo tio Sr. Reed (irmão de sua mãe), Jane começou a viver um inferno com a morte dele. A tia não conseguia nem ao menos fingir que gosta dela e a trata como se fosse pior que os criados que, por sua vez, também a desprezavam. Seu primo de 14 anos é especialmente horrível e se diverte batendo e a torturando.

E por que Jane era menos importante do que os criados?, você pergunta. Apenas porque ela não era filha legítima da dona da pensão? Não. Ela também era uma criança feia. Uma “sapinha” como a chamavam as duas criadas – Bessie e Abbot (aliás, durante o livro dá para perder a conta de quantas vezes as pessoas lembram Jane de que ela não é bonita). O único que parece ter reconhecido algum tipo de tristeza permanente na menina é o farmacêutico Sr. Lloyd (sim, porque o médico só era chamado para os Reeds. Os demais recebiam uma visita do farmacêutico mesmo).

Sr. Lloyd convence a Sra. Reed a deixar Jane ir para a escola – um internato barato e sem grandes atrativos, claro. Nos oito anos seguintes, Jane terá uma educação quase digna de uma dama (foco no quase) – ela aprende francês, a tocar piano, a bordar e coisinhas como essas. Durante esse tempo, ela nunca saiu da escola: suas férias, seus feriados e todo o tempo livre era passado ali com as professoras de quem ela se afeiçoou. Por ser uma boa e aplicada aluna, Jane tornou-se professora em seus últimos dois anos na escola.

Agora, ela queria algo diferente. Através de um anúncio no jornal, ela consegue um emprego como governanta da pequena Miss Adele, protegida do Sr. Rochester. Parece que a vida de Jane está sendo melhor do que aquela menina de 10 anos que sofria abusos da tia pensava. Jane cresce e vai buscar mais para si mesma. Ela questiona o tempo todo o que pode fazer para ir mais longe, ainda que o costume diga que não deve pensar nisso por ser mulher.

O livro é narrado por Jane anos depois de tudo isso. Ela está dividindo com o leitor suas experiências como em um diário. A linguagem, portanto, é pessoal e direta. Ela não se esconde em metáforas para explicar suas opiniões. Já na casa da Sra. Reed percebemos que Jane Eyre não é uma menina comum. Ela é questionadora e, ainda que assustada, fala o que pensa. De fato, ela é considerada uma criança terrível para a época porque crianças e, principalmente, meninas devem se comportar e aceitar o que lhes é imposto. Mas Jane parece não se importar com isso. Na escola, ela questiona até mesmo os princípios religiosos que tentam enfiar guela abaixo nos alunos. Quer dizer, em 100 páginas eu já estava encantada com essa menina.

Por exemplo, quando o Sr. Rochester – patrão dela em Thornfield – pergunta se ela não concorda que ele é superior a ela por ser mais velho, Jane responde: “Eu não acho, senhor, que tenha o direito de me comandar só porque é mais velho do que eu, ou porque viu mais do mundo do que eu. O seu direito à superioridade depende do que fez com seu tempo e experiência.” 

O livro nos conta, essencialmente, o crescimento de Jane e seus pensamentos sobre crescer pobre, manter-se pobre, encarar pessoas ricas de frente que acham que ela e seu bando são um “aborrecimento”, apaixonar-se pela primeira vez, cair do cavalo e, enfim, é sua autobiografia. E pode parecer mundano…e é. Mas nas mãos de Charlotte Bronte virou uma história que vale a pena ser lida. Quando você acha que está quase no fim e tudo vai se resolver, Bronte te derruba do cavalo a tapa. Mal dá para contar as reviravoltas desse enredo. 

Depois de ler Elizabeth Gaskell e Charlotte Bronte na sequência só tenho a dizer uma coisa a pessoas que se afastam de autoras clássicas por medo da linguagem, do estilo, da estrutura: get over it! Essas autoras escreviam de maneira quase visceral. É impressionante ver o que elas estavam criando quando ninguém dava muito crédito ao feminino como gênero pensante – Norte e Sul, por exemplo, não deixou nada a desejar perto de Grandes Esperanças de Dickens (ouso dizer). Está na hora de os leitores de hoje pararem de seguir regras antigas e se jogarem nos fantásticos livros dessas mulheres incríveis.

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6 Comentários em “Resenha – Jane Eyre”


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Adriana em 28.08.2017 às 00:36 Responder

Parabéns pela resenha! Conheci Jane Eyre através de Whutering Heights. Ainda não terminei, mas estou viciada como fiquei com o livro de Emily.

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Patricia em 28.08.2017 às 11:26 Responder

Que bom que está gostando do livro. Jane Eyre é um dos meus livros preferidos da vida…é muito maravilhoso! 🙂 Boa leitura.

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Heloíse em 10.10.2017 às 12:01 Responder

Ei,não gostei dessa parte :(sim, porque o médico só era chamado para os Reeds. Os demais recebiam uma visita do farmacêutico mesmo).Sou farmaceutica e a sociedade não sobreviveria muito tempo sem a gente.

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Patricia em 10.10.2017 às 14:21 Responder

Oi Heloíse, entendo e é verdade. Mas aqui os empregos são diferenciados por classe. Os ricos recebiam uma visita do médico e os pobres do farmacêutico. Esse é o contexto da frase. Não é uma diminuição de uma profissão ou de outra.

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Paula Souza em 13.01.2020 às 23:43 Responder

Excelente resenha!!!!!!!!!! Parabéns!!!!!!! Concordo plenamente com vc em relação às autoras.

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Patricia em 14.01.2020 às 17:27 Responder

Obrigada!! =D Né?! Tanta autora incrível que perdemos por medo de ler algo mais denso, ou antigo. Só temos a ganhar. 🙂


 

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