Resenha – João & Maria
por Thiago
em 15/12/15

Nota:

JoaoMariaGaimanMattotti

A clássica história de João e Maria teve sua primeira edição na primeira coleção de contos dos irmãos Grimm. Sim, coleção meus caros, os Grimm não eram escritores e sim coletores. Quando Napoleão invadiu a região, hoje conhecida como Alemanha, estes irmãos começaram a reunir as fábulas locais como forma de desafiar a dominação cultural dos franceses. Assim  apareceu Hansel e Gretel, ou João e Maria na terra do carnaval.

 

joão e maria 1

 

Várias culturas após este período fizeram sua versão desta história, a do Neil Gaiman, como era de se esperar, me agradou muito. Sou fã confesso dele. O que ela traz de diferente é a possibilidade da crença, na medida do possível claro. A construção de eventos anteriores a aparição dos dois irmãos nos traz um cenário palpável, os detalhes criam um clima tenso, mais tenso que uma bruxa puramente maligna. Claro que sempre será bizarro e mágico uma casa feita de doces no coração de uma floresta densa, mas sem isso não existiria essa história.

Gaiman faz a história se tornar real, os personagens tem explicações mais convincentes para suas ações, a magia é praticamente negligenciada. A realidade, a apreensão de um cenário desolado de guerra, a fome, a miséria, conceitos familiares. O real é sempre mais terrível do que o fantástico pode ser. O medo familiar, o medo do compreensível é diferente e é isso que você perceberá aqui (a não ser pela casa de doces né!)

 

joão e maria 3

A princípio pensei que poderia ser um caça níquel e não sei se estou totalmente errado. Entretanto, se olharmos a proposta com calma e cautela temos algo muito interessante.

Vejo com bons olhos esta versão do Gaiman, claramente voltada pro público infanto juvenil, por outro motivo. A geração de hoje, criada a base de ovomaltine é extremamente protegida e acaba assim se afastando de histórias aterrorizantes. Encontrei no site da revista super interessante uma fala do autor sobre esta questão:  “Eu acho que se você é sempre protegido das coisas sombrias você não tem como se proteger, conhecer ou compreender as coisas obscuras quando elas aparecem. Eu acho que é realmente importante mostrar o sombrio para as crianças e, nesse processo, mostrar também que essas coisas podem ser derrotadas, que você tem o poder. Diga-lhes que você pode lutar. Diga-lhes que você pode ganhar. Porque você pode, mas você tem que saber isso… Nós contamos histórias sobre o desconhecido, sobre a vida além-túmulo, há um longo tempo; histórias que fazem arrepiar a pele, que tornam as sombras mais profundas e, mais importante, lembram-nos que vivemos, e que há algo de especial, algo único e extraordinário sobre estar vivo. O medo é uma coisa maravilhosa, em pequenas doses”.

 

neil gaiman

 

Esta história tinha um papel pedagógico importante, ensinando as crianças diversas coisas, muitas ligadas a sobrevivência em tempos difíceis. Muito mais palatável para a criança é a fantasia, o mundo da imaginação, do que a realidade triste e fria. Assim as crianças da época entendiam que não deviam ir longe demais da casa, evitar o que parece atrativo demais, desconfiar de estranhos e compreender que muitas ações dos pais podem ser com a melhor das intenções por mais duras que possam ser.

 

joão e maria 2

 

A peculiaridade deste livro está na dobradinha Gaiman e Lorenzo Mattoti. Pra quem não conhece, Lorenzo é um aclamado ilustrador e quadrinista italiano. Em 2007, o Metropolitan Opera exibiu uma encenação da obra, que contou com uma exposição de ilustrações de Lorenzo Mattotti. Longe de uma interpretação infantil e divertida, as imagens do italiano se baseiam na obscuridade da história, em preto e branco, com o negro e o sombrio em destaque, mostrando os personagens apenas como sombras, geralmente no fundo do quadro, em pinceladas que criam uma atmosfera densa.

A partir das ilustrações sombrias de Mattotti, Gaiman escreveu sua versão. Como se as imagens já contassem o enredo, trazendo detalhes mais realistas e pesados ao conto. Não há nada mais sombrio que a própria realidade.

 

LorenzoM

 

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O livro foi enviado pela editora.

 

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