Resenha – Jogos Vorazes – vol. 1
por Patricia
em 30/04/12

Nota:

[Contém spoilers]

Jogos Vorazes está em todo lugar. O filme do primeiro livro já saiu e o sucesso foi imediato. A trilogia foi chamada de “a nova saga de sucesso”depois de Harry Potter e Crepúsculo. Enquanto ouvir Harry Potter me animou, ouvir Crepúsculo me desanimou completamente. Mas achei que valeria a pena ir em frente e ler o livro. Não poderia ser pior que Crepúsculo. E não é. Nem de perto.

O primeiro livro da trilogia nos apresenta Panem. Um país que surgiu onde antes estava a América do Norte que foi destruída por fenômenos naturais e guerras civis (piscadelas sarcásticas). Panem é um país com 13 Distritos e cada um é responsável por uma atividade essencial (agricultura, carvão e etc) dentro do sistema de Governo. Durante a história, descobrimos que o Distrito 13 foi destruído pela Capital quando tentou se rebelar. O mais interessante é que esse Distrito era o detentor das forças nucleares do Governo.

O sistema de Governo é a ditadura. Apesar da palavra nunca aparecer no livro, percebe-se claramente que a Capital existe para demonstrar seu poder ao povo e colocá-lo em seu lugar controlando-o com atividades como os Jogos Vorazes. Em essência, o jogo consiste de dois representantes de cada Distrito – os tributos (alias, tributo é sinônimo de imposto. A Capital aqui já deixa claro o verdadeiro significado do povo) – um menino e uma menina entre 12 e 18 anos que devem lutar até a morte. 24 entram e apenas 1 sai.

A partir dos 12 anos já se é elegível para disputar os Jogos Vorazes e é aqui que vemos uma direta crítica à sociedade de Panem. A partir dessa idade também já se é elegível para as téssaras que são trocas que as famílias pobres podem fazer. Em troca de óleo e grãos (essenciais para se aquecer e cozinhas), as crianças colocam seus nomes mais vezes no bingo da morte. E o número de vezes é acumulativo. Isso quer dizer que aos 18 anos pode-se ter o nome inscrito mais de 40 vezes nos Jogos, como Gale. (amigo? amante? interesse romântico? saco de batata? de Katniss)

Os pobres pagam com a vida pela sua pobreza. E não é assim em todo lugar? E a autora mostra que o preço que as crianças pagam são ainda piores. Não apenas elas se inscrevem mais vezes, como se são escolhidas para competir nos Jogos, elas são obrigadas a se transformarem em assassinas. O vencedor dos Jogos ganha dinheiro, uma casa chique em seu Distrito e fama. O que mais uma criança morrendo de fome poderia querer?

A história é narrada em primeira pessoa na voz de Katniss Everdeen. Quando sua irmã de 12 anos é escolhida para ser a representante feminina do Distrito 12, Katniss se oferece para lutar no lugar da irmã. Ela irá para os Jogos Vorazes junto com o filho do padeiro – Peeta Mellark.

Katniss tem 16 anos e cuida da família desde que o pai morreu nas minas de carvão e a mãe perdeu a base (e, parece, um pouco da cabeça). Ela caça na floresta proibida para a família ter o que comer e vende o que pode no mercado negro para comprar o que falta. Duas ações ilegais logo de cara. Então a Capital não transforma as pessoas apenas em assassinas, ela também as transforma em ladrões, corruptos e etc criando um sistema inflexível.

Quando chegam à arena dos Jogos, Peeta e seu orientador (o orientador é um ex-ganhador dos Jogos, do mesmo Distrito) elaboram uma estratégia para despertar o interesse da audiência nos dois (audiência = patrocínio = maiores chances de sobreviver). Peeta se declara apaixonado por Katniss. Isso mexe com o coração das pessoas frias e (in)sensíveis da Capital que passa a torcer por eles – ainda que isso não signifique nada de verdade. E eles poderão acompanhar a história em tempo real porque os Jogos são filmados e transmitidos para todos os Distritos. Os pais vêem seus filhos morrerem ao vivo e as pessoas com mais dinheiro apostam nos vencedores, como cavalos de corrida.

A crueldade é intensa.

Quanto a Katniss, o próprio orientador diz que ao se colocar como apaixonado por ela, Peeta a tornou desejável. Porque uma mulher só pode ser desejável se um homem diz que ela é. Mas Katniss é boba demais para entender a profundidade do que Peeta fez. Para o bem ou para o mal, Peeta os colocou na linha de frente da atenção do telespectador e, numa arena onde eles devem se matar, dificilmente isso poderia acabar bem.

Apesar de carismático, Peeta é um personagem incompleto. Ele não faz muito a não ser se declarar para Katniss. Provavelmente colocado na história apenas para fazer as meninas carentes de romance suspirar e sonhar que ele as ame também. (Tal qual o vampiro-que-brilha). Ele não faz muito. Não mata ninguém e ainda atrapalha parte da trajetória de Katniss. Quase que mais atrapalha do que ajuda e, sem ele, Katniss seria a campeã definitiva dos Jogos. Mas aí não teríamos volumes 2 e 3.

Eles acabam se separando no decorrer do jogos, e Katniss se associa à menina mais nova da arena, Rue.  Quando ela não consegue proteger a menina que acaba morrendo pela lança de um outro competidor, Katniss mata o algoz da pequena Rue. Mas ela não faz isso para se proteger ou para garantir sua posição no jogo. Ela fez isso para se vingar. E, na verdade, ela TEM que fazer isso ou os adolescentes lendo o livro iriam odiá-la. Não se questiona uma morte por vingança de uma menina negra de 12 anos. A própria mídia a colocaria como um modelo.

Em um outro momento, Katniss derruba um ninho de vespas sobre um grupo de pessoas e duas meninas morrem por causa do veneno das ferroadas. Mais uma vez, Katniss não matou ninguém. As vespas mataram. Ou seja, Katniss tomou uma decisão sem ter um resultado em mente. Ela não jogou as vespas sobre o grupo para matá-los. Ela o fez para tirá-los dali para que ela pudesse fugir. Ainda assim, as duas pessoas que morreram em consequência dessa ação serão atribuídas a Katniss.

A única morte pensada friamente por Katniss é a de Cato. Depois de ser atacado por bestas gigantes (enviadas pelos Organizados dos Jogos), Cato – o último participante entre ela, Peeta e a glória – está no fim da vida e PEDE para que ela o mate. E ela o faz. Mas ela não o matou de verdade. As bestas o mataram. Ela fez um favor em acabar com seu sofrimento. Mais uma vez, ou ela faz isso ou as pessoas a veriam como fria e sem coração. Uma heroína não pode ser nada disso. Todas as mortes causadas por Katniss não a tornam a assassina que ela deveria se tornar.

Toda sua trajetória é facilitada pelos demais personagens e pelo que o público quer dela. Katniss se comporta exatamente como a Capital quer que ela se comporte. Ela não é uma rebelde – apesar de parecer que sim porque ela odeia a Capital. Aliás, a atitude mais rebelde que ela pode poderia ter seria comer as amoras ao final do jogo e se matar. O que a Capital faria se não houvessem vencedores? Quem eles teriam controlado se todos os participantes morressem?

Mas não. Katniss e Peeta estavam blefando. Ela trocou a rebeldia pela glória. Isso não faz dela uma personagem forte, isso faz dela uma personagem comum. Ela faz o que todos fariam. Heróis devem fazer o que só eles podem fazer. Ela não é, e não se vê, como uma heroína. Nem como uma símbolo rebelde. Ela  tomou a decisão de não comer as amoras para que Peeta sobrevivesse. Mas…se ela tivesse se matado ele teria ganhado os Jogos de qualquer maneira. Então é simples. Ela não quis morrer. Quando  chegou o final e seria ou ela ou ele, Katniss resolveu que seria ou os dois, ou nenhum.

Mas nada disso tira o mérito de que o livro é interessante e contém uma crítica à sociedade e à forma como vemos a miséria como entretenimento, como o Governo está alheio às reais necessidades do povo, como o povo é controlado facilmente como uma horda de famintos e a forma como o Governo tende a se utilizar das necessidades mais vitais da população contra ela mesma.

O tom de “1984”está por todo o livro. Parece quase uma continuação do clássico de George Orwell. A Capital tudo vê e tudo decide. A maioria dos Distritos vive em estado deplorável, onde pessoas morrem de fome e são vigiadas constantemente pelos Pacificadores. Além disso, o livro é bem escrito – mais uma enorme diferença de Crepúsculo – e tem conteúdo para suas páginas. Apesar de ser classificado como “literatura jovem”, Jogos Vorazes contém críticas sociais densas que permeiam o rumo da história e a forma como ela é contada.

São todos os ingredientes para se tornar um clássico.

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2 Comentários em “Resenha – Jogos Vorazes – vol. 1”


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Octávio em 28.05.2012 às 18:45 Responder

Só uma correção: o nome do autor de 1984 é George Orwell.

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opoderosoresumao em 29.05.2012 às 01:00 Responder

Octávio, você tem toda razão. Obrigada pela correção. =)


 

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