Resenha – Leite Derramado
por Gabriel
em 15/10/14

Nota:

Leite Derramado

Chico Buarque é um dos mais conhecidos cantores e compositores brasileiros. Sua obra musical é respeitadíssima, sua produção teatral sempre teve um espaço razoável e mesmo sua figura pública tem um destaque interessante no Brasil. Já sua literatura atingiu seus melhores níveis no século 21. Já resenhei aqui Budapeste, ótimo romance do mesmo autor. Leite Derramado é de 6 anos depois, tendo sido lançado em 2009.

A obra tem cerca de 200 páginas e uma edição espaçada, com poucas linhas por página. Por conta disso, é leitura que se conclui em algumas horas. A escrita de Chico facilita a passagem pelas suas páginas, que fluem enquanto o leitor se aprofunda no mundo do seu protagonista.

Leite Derramado trata da trajetória de uma antiga família rica do Rio de Janeiro, contada por um senhor à beira da morte que viveu o(s) auge(s) e a(s) derrocada(s) dessa fictícia dinastia. Como tantas outras histórias conhecidas, a família se aproveita das facilidades e das benesses de um Brasil antigo: ainda mais brutalmente desigual, baseado em racismo, escravidão, favores, governos corruptos e de elite. Com essas benesses, cresce e se torna uma família rica; e dá origem a filhos e filhas que tratam de destruir essa riqueza.

É muito interessante ver a evolução da família Assumpção como uma história do Brasil. A linha do tempo da obra vem desde os tempos da escravidão até os dias de hoje, mostrando assim como a dinâmica dos favores, da desigualdade e da elite mudou muito ao longo dos anos. O abismo por vezes se retrai, por vezes abre novamente a distância, enquanto a família navega por tudo isso.

O grande diferencial do livro de Chico Buarque, no entanto, é sua forma narrativa. O autor replica com muita habilidade a fala de um idoso à beira da morte, que não mais considera uma linha do tempo clara, que se confunde quanto aos fatos, que repete histórias já contadas mudando pontos e que só esclarece alguns dos assuntos mais espinhosos ao final da obra (ainda assim, com alguma nebulosidade). Isso é o que faz a leitura tão interessante e não apenas mais uma novela de época. Aliás, Leite Derramado me passou a impressão de uma ótima candidata a roteiro de novela. Mas talvez a mudança de formato quebrasse a graça da obra, ao tirar características marcantes como a ausência de sequência temporal, por exemplo.

Chico nos brinda com mais uma bela obra de arte em Leite Derramado. Não sei bem se prefiro este livro a Budapeste, já que são propostas diferentes; considero os dois como tentativas interessantes de narrar uma história a princípio simples com um formato que traga inovações pequenas porém marcantes. E nos dois casos, a execução não decepciona. Se gostou de um, leia outro. Se não leu nenhum, faça isso!

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