Resenha – Lugares Escuros
por Patricia
em 11/01/16

Nota:

CAPA-Lugares-Escuros

E lá vou eu falar de Gillian Flynn novamente! 😀 Quem segue o Poderoso há algum tempo já sabe que gostei muito dos outros dois livros da autora: Objetos Cortantes e Garota Exemplar.

Lançado em 2009, Lugares Escuros nos apresenta Libby Day – uma sobrevivente de um massacre macabro: quando era criança, seu irmão – Ben- no que acreditavam ser um culto satânico, matou sua mãe e duas irmãs pequenas. Ela fugiu e conseguiu se esconder, mas viu o irmão ser preso e condenado à vida na prisão. Grande parte do caso contra Ben é o testemunho de Libby que afirma tê-lo visto cometer os assassinatos. Apesar de ter 7 anos na época, ela foi considerada uma testemunha ocular crível e seu testemunho enterrou as chances de defesa do irmão.

Vinte e cinco anos depois do crime, um grupo de investigadores amadores (e meio que voyers dos crimes alheios) entra em contato com Libby: algumas pessoas do grupo estão certas de que Ben não é culpado. Eles pedem que ela participe de alguns eventos em que possam debater os acontecimentos daquela fatídica noite.

Vivendo à base de doações generosas de estranhos ainda na época dos crimes, mas que agora estão acabando, Libby precisa de dinheiro. Ela aceita participar da reunião apenas porque acredita piamente que o culpado está preso e nada poderia mudar isso.

Você pode imaginar que, com essa premissa, o livro perderia muito no quesito suspense porque, afinal, claro que algo ali vai mexer com as crenças fundamentais de Libby do que aconteceu naquela noite. Mas não subestime o poder de Flynn para criar tensão: alternando os capítulos com o agora e o passado, ela nos guia no drama da família Day desde dias antes do assassinato: a pobreza da família, uma mãe que não dava conta de criar os 4 filhos, a fazenda que não estava rendendo o que deveria, um pai ausente e assustador e mais. Enquanto o leitor acompanha Libby tentando entender o que aconteceu, o leitor lê de fato, cena a cena, o brutal assassinato da família Day e tudo o que levou a isso.

É uma maneira de contar a história que mantém o leitor interessado enquanto as surpresas aparecem em cada curva. Além disso, Flynn usa muito bem a histeria que tomou os Estados Unidos nas décadas de 80-90 sobre cultos satânicos. Na época, diversos casos sem explicação eram considerados rituais satânicos. O mais assustador era o que poderia ser considerado como satânico naqueles dias: roupa preta, música pesada – principalmente rock – pessoas introvertidas…basicamente, qualquer um que não seguisse o fluxo de sociedade-feliz-que-ama-o-sol poderia ser um satanista. Com isso, casos reais aconteceram de pessoas presas por crimes que não cometeram por simplesmente, digamos, usar roupa preta e ouvir Metallica – um desse foi o infame caso dos West Memphis Three: 3 adolescentes foram acusados de matar 3 crianças em um ritual satânico em um conjunto de erros policiais e péssima informação. As repercussões renderam um documentário espetacular da HBO em 3 partes cobrindo um período de 20 anos em que apresentam os avanços do caso – falei um pouco sobre eles aqui e também resenhei o livro de Damien Echols – um dos condenados.

Em um bom exemplo do que Flynn consegue fazer, Libby é uma narradora não muito confiável, mas que ainda desperta alguma simpatia. Depressiva, sem amigos e sem perspectiva, ela tem uma dificuldade muito grande, compreensivelmente, em retomar os acontecimentos da morte de sua família e aceitar o que pode ter sido um grande erro de sua parte. Como não está acostumada a aceitar esse tipo de responsabilidade, Libby precisa amadurecer tudo o que ainda não amadureceu nos últimos vinte anos e esse será um processo doloroso.

Nos capítulos sobre o passado, Libby é apenas um espectro e, se não fosse a única sobrevivente da família, talvez nem fosse lembrada. Isso faz com que a empatia do leitor fique em suspenso alguns momentos. Libby não é agradável e pode parecer tão desconexa que o leitor também não consegue fechar essa ligação – isso acaba tirando o impacto da história.

Lugares escuros foi adaptado para o cinema em em 2015 com Charlize Theron no papel principal e a recepção foi morna – definitivamente, nada próximo do que foi visto com a adaptação de Garota Exemplar que rendeu até uma indicação ao Oscar para Rosamund Pike como melhor atriz.

Dos três livros lançados por Flynn, acho que esse talvez seja o mais fraco. Mas isso não quer dizer que é ruim, quer dizer, apenas que ela tem um nível bem alto no total de suas obras. Flynn é, definitivamente, uma autora que vale a pena acompanhar.

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