Resenha – Manson
por Patricia
em 14/09/15

Nota:

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Recentemente, li o não tão incrível Mentes perigosas: O psicopata mora ao lado da psicóloca Ana Beatriz Barbosa Silva. O livro é uma tentativa de explicar porque algumas pessoas caem no conto de uma pessoa que não tem as melhores das intenções (o que é claro para os de fora, óbvio). Isso é algo que sempre me causou certo espanto: como algumas pessoas seguem outras sem questionar muito, com uma fé cega e inocente, quase. Ouvindo discursos e lendo palavras que simplesmente acreditam ser a verdade pura, sem nenhuma outra explicação.

O não-questionamento é, claro, a base de todas as religiões e de todos os profetas já criados desde Jesus. Na História recente, porém, há um auto-proclamado profeta tão famoso quanto o homem de Nazaré: Charles Manson.

Manson é conhecido por ser o “profeta” que incitou um grupo de pessoas a cometer assassinatos terríveis em nome de um apocalipse inspirado na música Helter Skelter dos Beatles. Considerada por muitos críticos a avó do heavy metal, para Manson, Helter Skelter era parte de uma mensagem codificada dos Beatles sobre a guerra entre brancos e negros que estava por vir. Os negros venceriam a guerra e subjugariam os brancos. Manson e seus pupilos seriam poupados se encontrassem uma cidade subterrânea. Anos após o conflito, eles submergiriam e dominariam a Terra.

Para o crédito de Manson, ele soube usar as referências de sua época. Não apenas escolheu a banda mais famosa, como também aproveitou-se do clima de tensão que existia nos Estados Unidos dos anos 60 por conta do movimento civil negro que exigia mais direitos e o fim da segregação. Ou seja, para algumas mentes mais sensíveis e artificiais de então, o discurso de Manson não era tão absurdo quanto pode parecer hoje. Não mais absurdo do que quatro cavaleiros do apocalipse ou fogo vindo do céu para destruir cidades pecadoras.

A fama chegou para Manson e seus seguidores com os assassinatos brutais que deixaram Los Angeles apavorada. Uma de suas vítimas foi Sharon Tate – atriz e esposa do diretor de cinema Roman Polanski. Para deixar a situação ainda mais escabrosa, Tate, de apenas 26 anos, estava grávida de oito meses quando foi brutalmente esfaqueada por seguidores de Manson.

Jeff Guinn tomou para si a tarefa de contar a história que ninguém queria ouvir: quem foi Manson de verdade. Na biografia lançada pela editora Darkside no ano passado, o autor volta duas gerações e começa a narrar o que seria uma vida cheia de tragédias.

Manson teve uma família problemática, com uma avó beata, católica fervorosa que prendia suas filhas em casa para que seguissem a ordem de Deus à risca. Sua mãe, porém, aos 15 anos – como qualquer adolescente – testava seus limites e ansiava por fugir da estrutura rígida em que havia sido criada e, perpetuando diversos clichês de mocinhas católicas, engravidou ainda adolescente de um rapaz que não estava muito a fim de ser pai.

Sozinha e sem muito apoio, a mãe de Manson tenta se virar e acaba sendo presa. O pequeno Charles vai de um lugar a outro sem base, sem estrutura, sem nenhuma perspectiva. É fácil de ver que desde sempre ele não tinha muitas chances. Claro que entre não ter chances e se tornar um serial killer ainda resta um espaço interessante. Espaço que Guinn tratou de preencher com uma pesquisa extremamente bem feita, desmistificando mitos e jogando luz em uma América não tão bonita.

Com passagens intensas sobre como Manson descobre seu próprio carisma, seu potencial de convencer as pessoas e como ele ativamente monta um discurso e busca mocinhas desamparadas para seu culto enquanto sonha com a fama à qual julgava estar predestinado, o livro rende uma leitura difícil de largar. Podemos acompanhar página a página a transformação de Manson de homem desestruturado em monstro megalomaníaco. Não é menos chocante descobrir o quão fiel eram seus seguidores.

A edição da Darkside é visualmente bonita. Capa dura, como certas edições merecem, recheada de fotos e com detalhes em cada novo capítulo. Mas o bojo precisava de uma revisão melhor. Muito melhor. Foi só por isso que o livro não recebeu o pacote completo de cafeína do Poderoso. Há frases desestruturadas e o que são claros erros de tradução. Uma pena que tanto capricho no visual não tenha se refletido no interior.

Ainda assim, Manson é um biografia das melhores em seu conteúdo final. Além de nos apresentar ao personagem Manson, também reproduz com propriedade a atmosfera da época. Vale suas mais de 500 páginas.

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