Resenha – Margem Esquerda – LGBT
por Juliana Costa Cunha
em 29/06/20

Nota:

“Os debates sobre diversidade sexual guardam uma relação algo contraditória com a tradição marxista. De um lado, parte expressiva do marxismo deu pouca atenção à sexualidade, desqualificando-a como dimensão menor da vida social, ou como uma agenda secundária. Por outro, não foram poucas as agremiações socialistas e comunistas que deram contribuições fundamentais para as lutas dos homossexuais nos últimos 150 anos.

Marx não abordou diretamente o tema. Engels, por sua vez, apenas o tangenciou ao tratar da relação desigual entre os sexos no âmbito da família patriarcal.”

Renan Quinalha p.25

A revista Margem Esquerda é uma publicação temática da Editora Boitempo e em sua edição de Nº 33 , publicada em 2019, se propôs a discutir a temática LGBT. Sendo a Boitempo uma editora com notório embasamento teórico fundamentado no marxismo, esta publicação me despertou a atenção e o interesse na discussão que se propunham as diversas pessoas convidadas para escrever nela.

A edição está dividida numa entrevista de abertura com Judith Butler; o Dossíê: Marxismo e Lutas LGBT com textos escritos por Lucas Bulgarelli, Renan Quinalha (onde se localiza a citação que abre esta resenha), Rafael Dias Toitio, Amanda Palha e Isadora Lins França; e uma sessão intitulada Artigos, na qual Angela Davis escreve um artigo primoroso intitulado “Justiça para comunidades Lésbicas, gays, bissexuais e transgêneras”.

Depois deste artigo da Angela Davis segue-se uma sucessão de textos que vão homenagear a internacional comunista, os romances de Plínio Salgado, fazer uma análise da conjuntura política atual na América Latina e um outro artigo sobre Marx e seu método da economia política. Nenhum desses textos vai tocar na pauta LGBT, tema ao qual se propõe este número da Revista.

Posteriormente, temos uma seção intitulada Documento com dois textos escritos por Mario Mieli e Luiz Ismael Pereira que, somados, os dois textos tem três páginas nas quais se pretendem a abordar o tema LGBT. Eu tô aqui dizendo que quantidade é qualidade? Não mesmo. Mas vamos pensar que, para uma revista temática isso é muito pouco. Depois dessa sessão Documento a revista segue até a página 157 sem sequer citar a sigla LGBT.

Se a intenção era debater sobre a pauta LGBT e o Marxismo e encontrar as interseccionalidades entre ambos, que são inegáveis, mas que Marx não dialogou sobre eles (como afirma Renan Quinalha na abertura de seu texto), penso que a publicação fracassou terrivelmente. O que me faz achar que ainda, e infelizmente, a discussão das pautas LGBT não foram de fato acolhidas por pensadoras e pensadores marxistas.

A discussão ainda não se aprofunda. Ou, nesta revista, os textos solicitados não dão conta desta imersão que o tema pede. Faço ressalvas à excelente entrevista da Judith Butler e aos excelentes textos escritos por Renan Quinalha, Rafael Dias Toitio e Amanda Palha, trazendo a pauta tão urgente do transfeminismo, e o artigo já mencionado da Angela Davis. E é isso.

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