Resenha – Meia noite e vinte
por Bruno Lisboa
em 25/10/16

Nota:

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Que a internet mudou a vida de meio mundo isso não é novidade. Afinal é basicamente impossível pensar em qualquer área que não tenha sido transformada por ela. O universo da relações humanas que o diga. Se as gerações anteriores (leia-se nossos pais e avós) parecem não ter sofrido tanto as mazelas deste advento, a geração Y por sua vez vive um estado de mal estar contínuo que nunca cessa. E para falar e refletir sobre esta geração eis que temos Meia noite e vinte, a mais nova obra de Daniel Galera, escritor gaúcho que tem característica inerente a sua escrita uma analise minuciosa do que pode ser classificado como “romance de geração”.

A narrativa é ambientada em Porto Alegre no ano de 2013, cidade natal do escritor, e tem como foco a vida de Aurora, Antero e Emiliano, amigos que viveram intensamente os anos 90. Na época eles tiveram um fanzine literário digital  de sucesso (o Orangotango) e colheram os frutos de uma adolescência feliz. Porém, duas décadas depois o grupo, que não se encontrava há tempos, se reúne para uma fatídica data: o funeral de Andrei Dukelsky, único integrante do coletivo que seguira carreira promissora como escritor e morrera após uma tentativa de assalto.

Dividida em capítulos, a obra apresenta, sob perspectivas isoladas e já prontas para uma possível adaptação para o cinema, a trajetória de cada um três amigos que seguiram, cada um a sua maneira, caminhos distintos, mas que tiveram como ele comum a infelicidade da vida adulta. O reencontro que poderia ser marcado pela nostalgia habitual de situações como esta acaba por ser uma autêntica ode ao desespero.

Por mais que a história necessite dos personagens para imprimir ritmo à narrativa, o grande acerto do texto de Galera é que ele faz dos mesmos meros acessórios, já que a força de Meia noite e vinte reside justamente nas inúmeras reflexões sobre os nossos tempos que permeiam toda a obra. Contemporâneo a sua própria era (Daniel nascera em 1979), o autor traz à tona uma série de inquietações ligadas à política, ao mercado de trabalho, à violência urbana, à mudança considerável de valores da sociedade que resultam num incômodo irremediável que a geração que hoje está entre 30 e 40 anos não sabe lidar.

Numa única ressalva , o livro de fato merecia um melhor tratamento nas caracterizações dos personagens, pois em alguns momentos soa enfadonha a descrição minuciosa das atividades que os mesmos realizam. Porém, se futuramente as gerações que virão quiserem visualizar os dilemas vividos nos dias atuais Meia noite e vinte servirá como um belo retrato destes tempos confusos.

Coloque uma boa playlist do Spotify com o repertório do finado Elliot Smith (como esta daqui), cantor que soube como poucos versar sobre e alegrias da existência e faça uma boa leitura.

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O livro foi enviado pela editora

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