Resenha – Memórias de Brumadinho
por Poderoso
em 30/09/20

Nota:

Por Raphael Pantet

Com a vitória de Svetlana Aleksiévitch no Prêmio Nobel, o gênero literário da história oral está sendo redescoberto. Tradição iniciada com Heródoto e Tucídides na Grécia Antiga, de escrever histórias anteriormente apenas faladas, esta forma em sua acepção moderna foca seus esforços em contos individuais, os quais servem para narrar eventos maiores com uma pluralidade de vozes e contextos.

Ao invés de escrever biografias de generais, falar de movimentos militares na União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial, Aleksiévitch prefere falar das mulheres invisíveis na luta. Na tradição recente norte-americana os depoimentos são editados e organizados de maneira a formar um panorama, como em Mate-me por favor (2006) – a obra-prima sobre o punk – e Meet me in the bathroom (2017). No Brasil temos um trabalho de natureza semelhante em Memórias de Brumadinho: vidas que não se apagam (Autonomia Literária, 2020).

De autoria da jornalista Julia Castello Goulart, o livro traz uma série de relatos de 25/01/2019, data do rompimento da barragem da Vale no Córrego do Feijão em Brumadinho, MG, pouco menos de quatro anos após crime semelhante em Mariana, no mesmo estado onde extração de minérios é parte do cotidiano há séculos.

É impressionante que somente dois anos se passaram desde aquele rompimento, como um boxeador tomando murros a cada segundo, cada round no cotidiano do Brasil parece durar décadas. Munida das principais armas de um autor de não-ficção, um coração aberto e um ouvido afiado, Goulart entrevista uma variedade de pessoas – de funcionários sobreviventes e mães, a bispo, cidadão, prefeito e cacique – para trazer à tona dores, lembranças, receios, revoltas, memórias alegres e prosaicas, tudo que seus personagens não quisessem deixar soterrados sob a lama.

Cada capítulo tem o nome do entrevistado e uma identificação, um incentivo para a capacidade de empatia do leitor – qualquer um de nós poderia ser qualquer um deles -; o primeiro parágrafo sempre é uma citação direta, uma epígrafe individual, a partir daí a narrativa é na terceira pessoa para dramatizar o dia de cada uma dessas pessoas, incluindo diálogos, sensações dos personagens e o olhar da autora, um recurso eficiente e impactante: a leitura é fluída na mesma medida que torna os acontecimentos mais tristes, uma ambivalência curiosa e difícil de resolver para o leitor, sem prejuízo do livro em nenhum momento.

A obra conta ainda com uma apresentação de José Arbex Jr – a edição digital como um todo tem alguns pequenos problemas gramaticais e de revisão, mas muitos deles estão concentrados neste momento – e posfácio de Pollyana Ferrari, professora de jornalismo e orientadora deste livro enquanto era um Trabalho de Conclusão de Curso.

Mas a potência dos registros de história oral está em como o micro ajuda a revelar o macro. Através destas palavras conseguimos entender o tamanho da tragédia imposta: o lado jurídico, político, econômico, o resgate pelos bombeiros e as dificuldades de trabalhar na lama, os jornalistas – em seu próprio relato Goulart faz algumas críticas sutis à profissão, tão centrada nos dois lados, isonomia e prazos para entregar as matérias e esquecendo o restante -, o meio-ambiente, as tribos dos povos nativos – continuamos o genocídio iniciado séculos atrás de outras maneiras -, esses fios se desvelam delicadamente para formar um painel. E ajuda a manter esta memória viva, a emergir do lodo. Num país onde a prioridade é consumidores e motoristas – esquece cidadania -, onde o ciclo das redes sociais e notícias se retroalimenta o tempo todo para trazer a próxima indignação – uma longa edição do Cidade Alerta -, nada é tão importante. Como disse Arbex Jr, um livro escrito com o coração, mas endereçado ao fígado.

***

Dia 25 de fevereiro completava um mês que a tragédia havia acontecido. Teve a ideia, juntamente com o Capitão Kleber, de fazer uma homenagem às vítimas. As pessoas sempre perguntavam para o Corpo de Bombeiros como poderiam ajudar com doações. Pediu para que as pessoas doassem rosas. Com mais de dez helicópteros no céu, uma chuva de rosas caiu em toda a área atingida que tinha matado tantas pessoas. Uma bandeira do Brasil estava hasteada e toda a tropa bateu continência. Ele ali naquele momento, em solo, não conseguia conter as lágrimas. Talvez nos seus 26 anos de vida e mais de sete anos como bombeiro não tinha vivido uma experiência como aquela. Mesmo tendo trabalhado em Mariana, com gerenciamento de informações, desta vez tinha entrado mais diretamente em contato com as pessoas. Ainda tinham muito trabalho pela frente, muitos corpos não tinham sido encontrados. Ao vivo, com vários microfones da imprensa ao seu redor, prometeu que as buscas só iam acabar quando todos fossem encontrados. As buscas ainda permanecem.

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