Resenha – Memórias de uma guerra suja
por Patricia
em 07/04/14

Nota:

Memórias-de-uma-guerra-suja

Mais um livro da série sobre a Ditadura aqui no Poderoso. Sem muitas delongas, porque cada vez que termino um livro desses meu estômago fica menos paciente.

Cláudio Guerra foi, na época da Ditadura, algo como um assassino de aluguel. Extremamente frio e preciso, era convocado por seu superior para matar presos políticos, sumir com corpos e criar estratégias para que os assassinatos não chamassem atenção. Em “Memórias de uma guerra suja” ele narra sua participação em cada morte que lembra com nomes, lugares e tentando, ao máximo, dizer onde estão os corpos (muitos dos quais não foram e nem devem ser encontrados). O estilo de Guerra era simples: dois tiros no peito e, se necessário, um na cabeça. Ele não questionava, não duvidava e raramente sabia muito sobre seus alvos. Ele só descobriu o nome de muitas de suas vítimas quando passou por sites como desaparecidos.org

Ele deu seu depoimento de dentro da prisão onde se converteu à religião e decidiu que só havia um jeito de tentar diminuir um pouco o peso que carregava: contar a verdade. Tão frio como quando era, junto com Fleury, o assassino preferido dos militares no Sudeste, Guerra conta como matou diversos líderes de partidos e movimentos da esquerda; como os militares trabalhavam para que as evidências desaparecessem e as testemunhas ficassem confusas; como sumiam com os corpos e os atentados desenvolvidos para culpar ‘o outro lado’.

Guerra afirma que nunca torturou ninguém, mas que, muitas vezes, foi encarregado de sumir com os corpos daqueles que não aguentaram a tortura. Foi sua idéia usar um forno industrial (a la Hitler) para queimar corpos em uma usina no Rio de Janeiro. Os militares também esquartejavam e jogavam alguns corpos em rios e lagos (alô, Dexter!), além de usar ácido para dissolver outros (movimento Walter White). Essa medidas foram tomadas porque, segundo ele, os cemitérios clandestinos já ‘estavam manjados’. Parece uma história de um filme de terror? Pois é.

O livro é razoavelmente imparcial na medida que não há julgamento dos autores durante o discurso de Guerra. Temos muitas informações nos rodapés que complementam o que ele diz com nomes, descrição do que a vítima fazia, a qual partido pertencia e coisas que possam ter escapado da memória do delator e teve que ser pesquisada com mais profundidade.

Aos poucos, temos a clara noção de que Guerra fazia parte de uma equipe de terror criada pelos militares. O mais interessante é saber que ele, antes de ser desmascarado por uma reportagem, era considerado pelos políticos e civis do Sudeste como um “defensor da ordem e dos bons costumes” por seu trabalho como Delegado na divisão de Roubos e Furtos. O que mostra que temos que ter certo cuidado com paladinos que se auto-denominam “cidadãos de bem”. E empresas de bem também. Guerra entrega diversas organizações que financiaram ativamente ou apoiaram as ações do grupo de extermínio como Globo, Folha de São Paulo, White Martins, Mappin e etc. 

A decisão de manter a primeira parte do livro narrada em primeira pessoa foi correta pois dá uma outra dimensão ao que Guerra diz. Ler ‘ele matou’ é uma coisa, mas ‘eu matei’ é bem mais forte – ainda que Guerra não deseje colocar muito sentimento por trás do que diz. A segunda parte do livro envolve as pesquisas dos jornalistas em cima do depoimento e serve para contextualizar o leitor. No final, temos quase 100 páginas de notas com os nomes das vítimas – de ambos os lados – e informações sobre a pessoa. Ao menos, para aqueles que morreram como clandestinos e foram enterrados como indigentes é alguma justiça. Nem de perto o que deveria ser, mas é um passo. 

Não recomendo ler esse livro numa sentada. Além de uma forte depressão e um sentimento de impotência, em vários momentos, me veio um enjoo daqueles de perder o rumo e acabar com o dia. Claro que nem todo mundo será afetado da mesma maneira. Então, para quem quiser testar aqui vai um breve exemplo de um dos assassinatos que Guerra narra entregando o sadismo de seu superior, coronel Perdigão:

 “…Eles foram para a estrada e fizeram um corredor de atiradores. Perdigão vinha atrás, avisando por um rádio o momento em que a Kombi estava se aproximando do local ideal. O veículo foi metralhado por todos os lados e em seguida jogou-se uma bomba dentro dele. Não sobrou ninguém vivo. Pelo relato dos meus companheiros, o coronel Perdigão deu vazão em seguida a todo o seu sadismo. Contaram-me que a moça, Ranúsia, mesmo ferida, conseguiu sair do carro antes do fogo, ao contrário de seus três companheiros, que acabaram carbonizados. Estaria mal, agonizando. Foi Perdigão que fez questão de acabar com ela, a tiros. E ria enquanto atirava. Ria alto.” 

***

Outros posts sobre o assunto que já passaram pelo Poderoso:

*Resenha – Diário de Fernando 

*Resenha – O outro lado do poder 

*Resenha – Os infiltrados 

*Filme – O dia que durou 21 anos

*Filme – Cidadão Boilesen

*Filme – Mariguella

*Filme – O que é isso companheiro?

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