Resenha – Meninas boazinhas vão para o céu, as más vão à luta
por Patricia
em 10/09/13

Nota:

Meninas-boazinhas-vão-para-o-céu-as-más-vão-à-luta1

Cada vez mais tenho me interessado pelo feminismo e, portanto, ando buscando literatura sobre o assunto. Algumas coisas estão muito claras para mim mas não canso de aprender mais e mais sobre o tema. Encontrei Meninas boazinhas vão para o céu, as más vão à luta no meu sebo preferido (em SP, se quiserem saber o endereço, me avisem) e imaginei que tivesse um tom meio auto-ajuda, meio feminista por causa do subtítulo – Como acabar de uma vez por todas com os padrões destrutivos que ainda habitam o imaginário feminino. Forte.

A meta da autora é demonstrar os padrões de comportamentos femininos que acabam influenciando negativamente a forma como a mulher se coloca na sociedade decidindo, em última instância, se ela quer ser boa ou má perante os demais – títulos dos quais a mulher não parece conseguir escapar. Acho que você já deve ter ouvido o que consiste uma boa esposa e uma má esposa, por exemplo? E aparentemente, isso não varia de mulher para mulher, é apenas um padrão que existe.

O livro é de 1996 e pensei, sinceramente, que estaria desatualizado. Quase 20 anos de dados já deveriam ter ultrapassado qualquer conclusão que a autora teve, pensei eu. Ehrhardt é psicóloga e atendeu em seu consultório mulheres de todos os tipos. No livro, todos os pontos que ela cita são corroborados com exemplos de mulheres que já foram suas pacientes e passaram por situação similar.

As situações que a autora descreve são conhecidas: exigência de beleza perfeita (ainda que ninguém saiba exatamente o que seja isso), a idéia de que mulheres “fortes” são solitárias (ou, como ouvi uma vez, “provavelmente lésbicas”), a pressão pela maternidade, a necessidade de ser definida pelo homem que está com você, o medo do poder e mais.

images

Claro, o tom de auto ajuda permeia o livro – o que não me agradou muito. Mas reconheço que é difícil comentar a situação das mulheres no mundo de maneira didática sem citar exemplos para diminuir as dúvidas e trazer à tona modelos claros para quem ainda não conseguiu encarar seus próprios problemas de gênero – homens e mulheres que ainda não reconhecem a luta feminista e mantém a tradição que aprenderam no berço sem nunca questionar o status quo.

Ainda assim, em algumas partes, o tom de auto ajuda é tão forte que, confesso, li ávida por terminar. Esse não é um livro que se aprofunda na questão feminista, não temos exemplos profundos de mudança, apenas comentários da autora sobre o que ela já viu. Honestamente, acho que podemos elevar o debate a algo muito maior, mas entendo que temos que começar de algum lugar. O livro é bom mas em um mundo de internet disponível na ponta dos dedos, onde qualquer feminista pode montar um blog (e indico um ótimo ao final desse post) e escrever sobre seus próprios questionamentos feministas, a leitura desse livro fica um pouco pobre ainda que continue sendo válida.

images9890

Então, o livro está ultrapassado? Infelizmente, não. Os temas são atuais mas o nível no qual são abordados, sim, é fraco. A escrita de Ehrhardt é direta. Suas frases não têm muitos floreios e ela não perde muito tempo explicando algo que acha que você já deveria ter entendido. Ainda assim, a leitura pode ser monótona justamente porque alguns assuntos que ela trata, eu já li com mais profundidade em outros lugares.

Esse ano, outro livro que trata da questão “mulher e poder” foi lançado e causou alvoroço no mundo corporativo: Lean in de Sheryl Sandberg (que ainda não li inteiro) trata de um aspecto que Ehrhardt comenta muito em seu próprio livro: o dilema da mulher em investir na carreira de maneira efetiva quando isso, para a sociedade, significa abrir mão de tudo o que faz dela mulher (família, essencialmente). Uma mãe de família não pode ser uma poderosa CEO sem sentir uma certa culpa se seus filhos vão mal na escola.

A pergunta que se tenta responder e debater com profundidade é: até quando esse status quo se manterá na sociedade e o que podemos fazer agora para subvertê-lo? Nesse sentido, a leitura desse livro é apenas uma gotinha na bacia de água. Pode ser importante mas não é crucial para o que se propõe.

Para quem tem interesse nesse assunto, já comentamos aqui no Poderoso sobre um bom livro da Virginia Woolf que trata, na prática, de assuntos feministas: Profissões para mulheres e outros artigos feministas.  Recomendo muito também o blog da Lola para assuntos feministas no dia a dia: Escreva Lola escreva. 

Postado em: Resenhas
Tags: , ,

2 Comentários em “Resenha – Meninas boazinhas vão para o céu, as más vão à luta”


Avatar
Mariana em 29.01.2014 às 15:57 Responder

Apesar de soar como um livro de auto ajuda, gostei das partes que trazem relatos das consultas dela. É bom saber que tem várias pessoas passando pela mesma coisa, mesmo que seja em outro país.

Avatar
Paty em 29.01.2014 às 17:50 Responder

Sim, isso é verdade. Dá aquela sensação de que “não somos loucas”. Acho que se o livro fosse reescrito hoje – ou atualizado – teria um conteúdo bem mais interessante, talvez material para um debate diferente. Mas enfim, para nossa sorte, livros bons que falam das questões femininas têm saído mais e mais. 🙂


 

Comentar