Resenha – Meninos de Zinco
por Patricia
em 17/08/20

Nota:

“Meninos de zinco” é o 5º livro lançado no Brasil da bielorrussa vencedora do Nobel, Svetlana Aleksiévitch. Aqui no Poderoso, já escrevi sobre outros três títulos: O fim do homem soviético; Vozes de Tchernóbil e A Guerra não tem rosto de mulher (sobre o qual também temos um episódio do podcast)

Em “Meninos de Zinco”, Aleksiévitch nos leva à década de 80, durante a guerra Soviética-Afegã, iniciada em 1979 e finalizada em 1989.

Antes de tudo faço um resumo muito breve para contextualização: em 78, o Afeganistão passou por uma revolução comunista, que não foi bem vista por algumas classes políticas do país levando a forte opressão. Com a criação de milícias armadas, o país explodiu em rebeliões e o presidente foi assassinado. Isso fez com que a União Soviética entrasse na briga enviado militares e armamentos para combater os rebeldes.

No livro temos, pela primeira vez, a voz da autora claramente em debate com si mesma.

Não quero mais escrever sobre a guerra…Viver mais uma vez em meio à “filosofia do desaparecimento” em vez da “filosofia da vida”. Reunir uma infindável experiência de não existência. Quando terminei “A Guerra não tem rosto de mulher”, fiquei muito tempo sem poder ver sangue saindo de um machucado comum num nariz de criança; nas férias fugia dos pescadores que jogavam alegremente nas areias os peixes trazidos das profundezas distantes, aqueles olhos petrificados e esbugalhados me davam náuseas. (pág. 17)

Minha experiência com os livros de Svetlana tem sido avassaladoras. Terminei cada leitura com a sensação de que havia muito que eu ainda desconhecia sobre todos os tópicos que ela escolheu relatar. Se ler as obras de Aleksiévitch é uma atividade dolorosa, vale imaginar que sentar à frente das pessoas que contam sua histórias seja de um peso considerável.

Algo novo também nesse livro é que, muito além de só narrar o que os sobreviventes da guerra poderiam compartilhar, a autora esteve na guerra, em Cabul. Isso cria uma dinâmica diferente porque temos, agora, algumas cenas vistas por ela em primeira mão.

No hospital, pus um ursinho de pelúcia na cama de um menino afegão. Ele pegou o brinquedo com os dentes e brincou assim, sorrindo; não tinha os dois braços. “Seus russos atiraram nele”, traduziram para mim as palavras da mãe. Eu não entendia o que era maior nas palavras dela – o horror ou o perdão. (pág. 25)

***

Foi a partir da guerra do Afeganistão que muitos jovens começaram a questionar a narrativa de que a União Soviética era o país mais forte do mundo.

Fico ofendido por minha credulidade. Os comissários políticos nos convenciam de coisas em que eles mesmos não acreditavam. (pág. 85)

Antes meus lábios tremiam diante da palavra “pátria”. Agora sou outro. Lutar em nome disso…lutar pelo que? (pág. 92)

Para muitos soldados e suas famílias os questionamentos do que viram, viveram ou ouviram não podiam ser esquecidos. O título do livro vem dos caixões de zinco nos quais os soldados mortos voltavam para casa. Caixões lacrados, proibidos de serem abertos.

***

O livro foi publicado em 1989 e em 1991 foi decretado o fim da União Soviética. Isso fez parecer, para alguns, que Aleksiévitch estava manchando a reputação da nação que agora jazia morta.

Alegando insulto à sua moral, algumas pessoas que deram seus testemunhos decidiram processar a autora exigindo um pedido de desculpas e (algumas) uma indenização em dinheiro. Ela também recebeu ameaças e tentaram banir o livro. O livro é iniciado com um compilado de testemunhos sobre a guerra e chegamos ao final com uma discussão feroz sobre liberdade de expressão em um país que ainda não parece ter muita consciência do isso significa.

Em “Meninos de Zinco” (e eu diria em todos os seus livros até agora), a autora não permite que a hipocrisia ganhe força. Ao expor a verdade como ela é: feia, suja e podre, ela força o leitor a ver um mundo para além das propagandas e da História contada pelos vencedores (ou nesse caso, os perdedores).

Ela descreveu minha vida, não sei por quê. Numa linguagem simples, infantil. Que literatura é essa? Um livreco pequeno e imundo…(pág 308).

….que vale a pena ler.

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1 Comentário em “Resenha – Meninos de Zinco”


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Eu não sei logaritmo em 17.08.2020 às 12:03 Responder

Só lemos “A guerra não tem rosto de mulher” e é incrível! Inclusive trabalhei esse livro com uma turma de 9o ano de uma escola municipal aqui de Campinas e foi uma experiência fantástica, forte demais. Estamos com muita vontade de ler mais coisas dela, ainda mais depois desse texto!


 

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