Resenha – Meninos em fúria
por Bruno Lisboa
em 22/03/17

Nota:

 

O movimento punk, em termos mundiais, é um dos maiores exemplos de união entre a arte e o engajamento político. Suas origens são historicamente relacionadas aos primeiros passos dados em cidades como New York e Londres, onde bandas como os Ramones e os Sex Pistols criaram sonoridades agressivas, velozes e sujas que promoviam em suas letras, críticas ferozes a sociedade vigente. Este movimento iria reverberar em todo o mundo e no Brasil não seria diferente. Nesse sentido Meninos em fúria é um retrato fidedigno da época.

Escrito em parceria pelo jornalista e escritor Marcelo Rubens Paiva e o músico/apresentador Clemente (da icônica banda Inocentes). Amigos de longa data, os autores fazem do livro um autêntico panorama do Brasil safra 80. Na época o país ainda vivia dos resquícios da ditadura, mas que tinha na música a força motriz para externar a sua insatisfação quanto ao governo opressor operante. É fato que Chico Buarque e o movimento Tropicalista já, de alguma forma, já haviam politizado a Música Popular Brasileira, porém foi no movimento punk que esta temática ganhara força e clareza.

Cada capítulo da obra é dividido por depoimentos de ambos que narram (de maneira descompromissada, informal e divertida) os primórdios do punk no Brasil, tendo como foco o ápice do movimento: o ano de 1982. Paiva responde pela contextualização histórica, trazendo em detalhes o cenário político cultural da época que ainda vivia os resquícios da ditadura e de uma crise econômica, mas que via nascer um novo rock que iria, não muito tempo depois, conquistar popularidade. Clemente, por sua vez, fala com propriedade (que só quem acompanhou in loco poderia o fazer) das origens do movimento que nascera de forma violenta, em meio as guerras de gangues, mas fora se consolidando, ganhado asseclas e atenção da mídia especializada, até firmar uma cena sólida, com inúmeras bandas influentes que iriam adotar como discurso direto a afronta ao capitalismo e ao governo.

Para além da música, os autores também trazem à tona detalhes de suas vidas pessoais. Paiva, por exemplo, revela, como num autêntico making of, que na época estava por terminar Feliz ano velho, obra que o definiria como escritor na época em que ainda estudava jornalismo. O uso de drogas, a conquista da fama e o seu preço são algumas das outras temáticas abordadas.  Já o músico, Clemente, fala abertamente de sua relação familiar, as amizades conquistadas, os erros e acertos cometidos ao longo da vida, da sua luta constante pela sobrevivência e da necessidade de manter a sua identidade questionadora.

Por mais que a obra tropece na exposição de ideias que se atravessam, resultando na repetição na intercalação das vozes em alguns momentos, Meninos em fúria é um importante registro sociocultural, pois expõe (sem rodeios) o real poder da música.

Por fim, é de se estranhar que num contexto geral grande parte do público tenha perdido o interesse em discutir e lutar por causas que visem melhorias para a sociedade. Um dos maiores exemplos deste fenômeno é justamente a música , antes instrumento de voz popular, que hoje prefere dar vazão ao hedonismo e as canções de amor, que predominam no dia a dia das rádios e tvs brasileiras. E para vencer esta apatia é necessário que este estado de letargia musical cesse. O caminho das pedras está aqui.

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Livro enviado pela editora.

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