Resenha – Mentes perigosas: O psicopata mora ao lado
por Patricia
em 17/07/15

Nota:

Unknownlivro

Me interessei por ler Mentes Perigosas pelo tema abordado. Acho muito interessante o estudo sobre psicopatas, esse humanos que não tem empatia ou qualquer outro sentimento pelo próximo. No cinema e nos livros, psicopatas já foram retratados diversas vezes por vários ângulos. O livro mais recente que li sobre um foi o magnífico O Talentoso Ripley de Patricia Highsmith.

Minhas expectativas para Mentes Perigosas eram razoáveis já que a Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva vendeu mais de 400 mil livros – marca impressionante em um país em que a maioria das pessoas lê menos que 2 livros inteiros por ano. 

Essa obra, porém, foi uma certa decepção.

A intenção da Dra. Silva é apresentar casos e características identificadas em psicopatas para que qualquer pessoa possa reconhecer certos comportamentos e evitar situações difíceis. A questão é que, nos casos iniciais em que ela nos conta histórias supostamente reais, a Doutora analisa o relato da vítima e não de psicopatas reais. Ao citar a amiga de Maria que abusou dos favores que recebia ou de Ana que foi ludibriada por Rafael, o livro tem um tom que me lembrou muito uma coluna de conselhos de revistas como Capricho. Quase como uma amiga dizendo para a outra que “tal é ruim mesmo. Você está melhor agora”. Esse parágrafo abaixo poderia ou não estar em uma coluna da Marie Claire?

[…] Por isso, não se iluda! Esses indivíduos charmosos e atraentes, frequentemente deixam um rastro de perda e destruição por onde passam. Sua marca principal é a impressionante falta de consciência nas relações interpessoais estabelecidas nos diversos ambientes de convívio humano (afetivo, profissional, familiar e social). O jogo dele se baseia no poder e na autopromoção às custas dos outros, e eles são capazes de atropelar tudo e todos como total egocentrismo e indiferença. (pág. 41)

Só que aí, a própria Doutora se contradiz no capítulo seguinte quando diz que:

A simples identificação de alguns sintomas não é suficiente para a realização do diagnóstico de psicopatia. Muitas pessoas podem ser sedutoras, impulsivas, pouco afetivas ou até mesmo ter cometido atos ilegais, mas nem por isso são psicopatas. (pág. 76)

Ué…mas se ela não conhece os tais psicopatas da vida de seus pacientes, como saber o que é real, o que é enviesado pela tristeza da vítima e tudo o mais? Não me parece uma questão tão preta no branco quanto a autora faz parecer. Agora, concordo que uma pessoa que possua diversas características negativas possa causar sérios danos a outras. Mas ao ler esse livro, senti que essa é mais uma obra de opinião sobre o assunto usando como base casos reportados na mídia e as experiências da Dra. com seus pacientes. Ao final do livro, ela lista algumas outras fontes de pesquisa, e são várias. Mas o que fica claro é a dificuldade de identificar e “tratar” o que seria a psicopatia. Tudo me pareceu genérico demais.

No capítulo dedicado a psicopatas no ambiente de trabalho, as características que ela cita são tão genéricas que não sei exatamente se identifiquei 15 psicopatas na empresa em que trabalho porque eles o são realmente, ou se foi porque tive um dia péssimo depois de uma reunião tensa. Porque contexto, pessoal, é importante. Principalmente quando falamos de pessoas multidimensionais.

Quando ela entra na questão de que a política é um ótimo lugar para psicopatas, percebi que esse não seria um livro que eu iria levar a sério. A base para essa “opinião” é apenas o Brasil, claro. Não sei se o mesmo pode ser dito de políticos na Finlândia. Para variar, porém, não há dados específicos, apenas uma idéia da autora que acredita que o que “vemos por aí” já é dado suficiente para provar seu ponto (a menos que consideremos a Revista Veja como grande pólo de pesquisa):

Esse fato pode ser facilmente verificado pelas inúmeras manchetes que diariamente noticiam os diversos crimes cometidos por maus políticos: lavagem de dinheiro público, formação de quadrilha, corrupção ativa e passiva, gestão fraudulenta, evasão de divisas, crimes de peculato, desvio de recursos de obras públicas, envio ilegal de dinheiro ao exterior, crime contra a administração pública e por aí vai. (pág. 110)

No capítulo em que ela comenta notícias de jornais, a doutora abre com o seguinte parágrafo (grifo meu):

Ao iniciar este capítulo, é importante ressaltar que em momento algum afirmo que as pessoas aqui descritas são psicopatas de fato. Esclareço também que não tenho nenhum nível de convivência com elas e tampouco fiz alguma investigação diagnóstica específica que pudesse atestar a psicopatia em suas personalidades. O que me interessa aqui são os acontecimentos e os atos que lhes são atribuídos, uma vez que sugerem um proceder característico da psicopatia. (pág. 119)

Estenda esse parágrafo a todo o livro e teremos um belo resumo da obra. Impressões de uma psicóloga sobre o que PODERIAM ser psicopatas e algumas maneiras bem generalizadas de identificá-los.

A obra tem alguns bons momentos como quando a Dra aborda a questão de como contribuimos para uma sociedade onde ter é essencial e o exibicionismo tem tomado proporções estranhas – questões que facilitam as ações de psicopatas, principalmente aqueles que acreditam que deveriam ser famosos por qualquer motivo.

Sem sombra de dúvida, o cenário social dos nossos tempos favorece o estilo de vida do psicopata. Ele reflete de forma precisa esse ‘novo homem’, voltado somente para si mesmo, preocupado apenas com o que é seu e desvinculado da realidade vital dos que estão ao seu redor.(pág. 180)

Além disso, a autora não foge de assuntos espinhosos como maioridade penal – mas o livro foi lançado em 2008 e, portanto, ela não comenta o recente debate.

Levou três estrelas, mais pelos capítulos finais quando ela aborda o papel da sociedade que achei realmente interessante e bem escrito. Mas, no geral, um tiro na água psicótica da vida.

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2 Comentários em “Resenha – Mentes perigosas: O psicopata mora ao lado”


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julia em 01.04.2019 às 11:03 Responder

você perdeu tempo lendo o livro porque realmente não entendeu o que a Dr. quis dizer. esse texto é basicamente uma opinião própria e equivocada de alguém que não entende do assunto.

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Patricia em 01.04.2019 às 11:05 Responder

Uma resenha é mesmo um opinião pessoal. O bom da literatura é que cada um pode ser impactado por ela de uma maneira diferente. Que bom que vc gostou do livro.


 

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