Resenha – Meu Amigo Jesus Cristo
por Ragner
em 06/03/15

Nota:

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Dei de cara com esse livro de supetão. Em uma estante na biblioteca da escola em que trabalho. Me lembro que já tinha ouvido sobre esse título em alguma ocasião que não me lembro, li a orelha, pensei que poderia ser interessante, não estava entre minhas pretensões de leituras para esse carnaval, mas gostei do que li nas 30 primeiras páginas e decidi encarar. Começou muito bom, sem papas na língua, com um linguajar que pode ser considerado despojado, caricato, pesado, mas que causa aquela curiosidade de como tudo vai ser desenvolvido.

Fui tomado por uma vontade absurda de saber tudo o que acontecia, como ia acontecendo e iria acontecer, que li mais de 200 páginas de uma tacada só (ok que foi durante uma viagem de 13 horas, mas li como se fosse um dos livros mais legais que já conheci). Não é um livro policial, não há um enredo frenético que capta a atenção de forma avassaladora, mas os personagens são o ponto forte de toda a narrativa e mesmo que o protagonista seja um boçal de marca maior, um idiota que está pouco se lixando para os outros ou quase um sociopata descerebrado, ele possui um certo carisma e depois que encontra Jesus, enorme, barbudo, motoqueiro, em sua casa, de madrugada, a perspectiva de que o fundo do poço é só um lugar para se tomar impulso, deixa o livro mais legal ainda.

Jesus aparece algumas vezes, poucas até, fala pouco também, mas ele desenvolve um entendimento do que precisa ser feito para a vida do protagonista tomar um rumo endireitado e se tornar uma pessoa melhor, que deixa os ensinamentos bem mais interessantes. E observem que Jesus é capaz de dar uma lição fenomenal em um valentão e nada de ordeiro caracteriza sua imagem. Nem física, nem moralmente. Jesus aqui é um badass com poucas palavras e pouquíssimas aparições. E ele é um mero personagem coadjuvante.

Nikolaj – o protagonista -, desde criança era problemático e exaustivamente nem ai com nada. A única pessoa por quem nutria qualquer amor era a irmã e até mesmo esse era doentio. Nikolaj não se importava com qualquer coisa que não fosse ele mesmo ou ter toda a atenção da irmã – Sis -. Seus pais morreram quando ele tinha 13 anos e ela 20, a mãe era uma cantora que era adorada na Dinamarca, ambos receberam uma fortuna de herança e Sis consegue investir mais e mais o dinheiro que ele nunca precisou batalhar. Com os anos em que recebe todo o carinho e atenção da irmã, Nikolaj vai criando um mundo particular em que todas as ações, prejudiciais ou não, faziam com que Sis cuidasse dele para sempre, mas ela passa a querer ter uma vida própria, até mesmo uma família e quando tudo parece estar indo bem, Nikolaj namorando uma garota encantadora, ele a espanca, com um sorriso estampado no rosto. Sis que viajava com o esposo e filho, deixa tudo para trás, volta para casa, tenta de alguma maneira ajudar a garota, mas vai percebendo que nada mais terá solução. O irmão apronta outra disparidade sem precedentes e ela comete suicídio. Nesse momento, quando Nikolaj percebe que ultrapassou todo e qualquer limite, Jesus aparece pela primeira vez.

Desse ponto em diante, nada mais parece ter outro sentido a não ser sair do buraco em que se afundou durante anos e anos de rebeldia, loucura e um bocado de depressão também. Após anos e mais anos com a irmã que o defendia e tentava o ajudar a ter uma vida boa, Nikolaj escuta um motoqueiro barbudo que diz que está ali para ajuda-lo. Jesus incumbe Nikolaj a se mudar, criar uma rede de amigos para se ajudarem (o problemático precisa evoluir e ajudar na evolução dos outros também), acertar seus problemas com o cunhado (já que esse ainda sofre com a perda prematura e traumática da esposa), ajudar a avó a se perdoar por todo o passado ausente e submisso ao esposo e se desculpar por toda dor e terror que causou na vida de Silje – a ex namorada.

Meu Amigo Jesus Cristo pode não agradar a algumas pessoas. Há um palavriado que pode incomodar, situações que podem ser desnecessárias, mas na minha opinião é fantástico. É um livro que poderia até ser visto como politicamente incorreto, o que o deixa melhor ainda e até favorece a formatação do Jesus aqui, pois de fraco ele não tem nada, pelo menos na visão nietzcheana.

 

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