Resenha – Meu ano de descanso e relaxamento
por Patricia
em 14/02/21

Nota:

A narradora de Meu ano de descanso e relaxamento é linda, rica e acabou de se formar numa prestigiosa Universidade nos Estados Unidos. Porém, ainda parece existir um vazio dentro dela e ela decide preenchê-lo…dormindo. Uma saída para nunca enfrentar os problemas é estar inconsciente quando eles aparecerem, não é mesmo?

Então ela decide se aproveitar de sua polpuda herança e se enfurnar em seus apartamento, saindo apenas para renovar as receitas médicas de uma psiquiatra, que ela encontrou nas páginas amarelas e que não se omite de testar remédios que ainda nem foram oficialmente aprovados em sua paciente. O bom é que isso é exatamente o que nossa narradora quer.

Em um estupor de remédios, ela vê as horas e os dias passarem sem conseguir sentir muita coisa: nem alegria, nem tristeza. Ela sente um sono profundo e fica feliz quando percebe que acordou três dias depois e não tem ideia do que aconteceu. Seus contatos com o mundo fora do apartamento são poucos: uma visita a um bar para uma dose de café ruim, visitas à farmácia para retocar as drogas, a visita mensal à psiquiatra, as visitas não solicitadas que sua amiga Reva lhe faz, e seus telefonemas para um ex-namorado por quem ela não consegue decidir se está obcecada ou não.

Enquanto ela está entrando e saindo da névoa induzida pelos remédios, ela começa a lembrar cenas de seu passado. E aqui, o vazio se forma. Conhecemos seu pai, professor e cientista de sucesso, mas um pai ausente e frio que não sabia lidar com a filha. Morreu de câncer em casa com a ela assistindo. A mãe era linda. Parecia uma modelo. E demonstrava sem muito embaraço o quanto ter uma filha atrapalhou seus sonhos de se tornar uma socialite. Passava dias bebendo e dormindo. Ambos morreram com 6 meses de diferença. Quando se formou na faculdade, a narradora já era órfã.

A história vai acompanhar esse vai e vem de consciência, uma mistura de passado e presente, de realidade e ficção, de sonho e pesadelo no qual a narradora se inseriu. Ela acredita que um ano de isolamento e muita química é o que precisa para reequilibrar a vida. A expectativa é que tendo dormido o suficiente, ela renasceria e seu ano de descanso seria uma renovação. O leitor fica suspenso em um misto de susto e fascinação.

O foco nas memórias da protagonista faz desse um livro que estuda sua personagem de forma impiedosa. Não sobra muito para o leitor gostar dela. Talvez um aceno àquilo que guardamos mais no fundo de nós e que, se viesse à tona, talvez ninguém gostasse de nós também. E por que não abandonar um mundo que parece ter te abandonado também, nem que seja por um período específico?

Não consigo reconhecer nada que justifique minha decisão de hibernar. No começo, eu só queria uns tranquilizantes para abafar meus pensamentos e juízos, já que o bombardeio constante tornava difícil a tarefa de não odiar a tudo e a todos. Achava que a vida seria mais tolerável se meu cérebro demorasse um pouco mais para condenar o mundo ao meu redor. (pág. 22)

Era a prova de que eu nem sempre estivera sozinha neste mundo. Mas também acho que estava me apegando à perda, ao vazio da própria casa, como que para afirmar que era melhor ficar sozinha do que presa a pessoas que deveriam te amar mas não conseguiam. (pág. 60)

A rejeição, descobri, pode ser o único antídoto para a ilusão. (pág. 131)

É estranho ler um livro como esse quando a maior parte do mundo passou um ano enclausurada em casa, e não por escolha, enquanto aqui temos uma protagonista escolhendo o isolamento para não ver a vida passar. Esse contexto tornou a leitura ainda mais interessante e extrapolou o humor sarcástico que a autora usa de forma liberal. Me fez pensar se vamos sair dessa pandemia reequilibrados ou só mais putos e desconectados.

Durante o ano de hibernação, Reva (única amiga da narradora) passa pela morte de sua mãe, um relacionamento frustrado, uma gravidez não desejada, além, claro, da constante pressão que sente por perder peso, comprar coisas bonitas / caras e se “encaixar” no que se espera de uma mulher vivendo em Nova York. Ao final, fica a dúvida de qual das duas aproveitou mais esse ano: se Reva que bateu de frente com uma sociedade impiedosa ou a narradora que tentou se reconstruir excluindo o que não agregava mais nada.

Sentir ou não sentir, eis a questão.

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