Resenha – Micróbios
por Patricia
em 17/07/17

Nota:

 

A melhor parte da literatura, para mim, é que cada história pode impactar uma pessoa de um jeito totalmente diferente – para o bem ou para o mal. Quem nunca passou a noite inteira lendo um livro pode achar que ninguém seria impactado por uma história a ponto de perder o ponto de ônibus, não conseguir trabalhar direito no dia seguinte, ir mal em uma prova.

Minha primeira lembrança como leitora impactada por um livro de maneira inesperada foi virar a noite lendo uma obra da Agatha Christie tentando descobrir o assassino (que se você acompanha esse blog há algum tempo sabe bem que nunca consegui – meu placar atual é: 26 para Agatha Christie X ZERO para mim). No dia seguinte, dia de prova na escola, eu parecia uma múmia além de estar com um humor péssimo por não ter a mínima ideia de quem tinha cometido o crime. E, ainda assim, passei os meses seguintes devorando livros da autora.

Se literatura é uma doença, talvez Agatha Christie tenha sido meu primeiro sintoma.

Essa é uma premissa que rende bons frutos em Micróbios do argentino Diego Vecchiolançado em 2016 pela Cosac Naify (volta Cosac!). Com nove contos, o autor nos guia por temas que alinham literatura à medicina e como seus resultados podem ser incríveis ou catastróficos.

O primeiro conto, por exemplo, nos apresenta a Dorothea Kristensen, mãe de quatro crianças que cria histórias especiais para quando seus filhos ficam doentes. Suas histórias tem títulos como: Histórias para crianças com otite aguda purulenta e Histórias para crianças com tosse ferina. Seus remédios em forma de literatura chamam a atenção de outras mães e viram sucesso de vendas. Mas, veja, escrever uma história exige trabalho e esforço. Não demora até que Dorothea perceba que todas as suas histórias acabam afetando sua própria imunidade de maneira negativa. Cada vez que ela escreve algo que pode salvar uma criança, ela fica mais fraca e, consequentemente, exposta a doenças.

Aqui o autor é sagaz em comentar sobre o processo da escrita – cada palavra suada, cada enredo desenvolvido, cada personagem criado tem um peso para o autor também. A doença do autor é tentar dar vida à essa criação que está, até então, apenas em sua cabeça. É interessante também que cada conto se passe em um país totalmente diferente e com culturas próprias. Ou seja, é um atestado de que a literatura, tal como a medicina, não tem barreiras – afeta e influencia a todos em qualquer lugar do mundo, muitas vezes de maneira similar. Assim nascem os fenômenos literários que conhecemos bem – de Harry Potter a Elena Ferrante.

Vecchio é hipocondríaco e estudou psicanálise na França, onde vive. Durante sua passagem pela FLIP 2015, ele comentou sobre o livro e disse que não sabe se ficou hipocondríaco ao escrever o livro ou se só foi possível escrever porque ele é hipocondríaco. “A hipocondria é uma forma de guerra entre o corpo e os micróbios, às vezes entre os próprios órgãos. Para escrever, eu tinha que ser hipocondríaco. Ou então me tornei durante o processo. Durante este período eu tive resfriados horríveis (risos). O hipocondríaco é uma pessoa hipersensível. Dói a cabeça e já acha que tem um tumor — brincou o autor. — Um ponto em comum entre os hipocondríacos e os escritores é a imaginação.” (Trecho retirado de matéria do Globo sobre a FLIP).

Vale ressaltar que nesta maravilhosa edição da Cosac Naify (como sempre), todo o texto está em verde – um verde escuro meio musgo, meio “resfriado”.

O humor do autor e sua criatividade fazem com que Micróbios seja uma leitura leve e divertida; e sua qualidade como autor rende contos bem escritos com personagens realmente interessantes – algo que às vezes pode ser um grande desafio em contos quando se tem menos espaço para desenvolver um personagem. Micróbios é leitura mais que recomendada e vai levar 5 doses daquele café de mãe, fresquinho numa manhã de domingo.

 

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