Resenha – Minha sombria Vanessa
por Patricia
em 18/01/21

Nota:

Gatilho: violência sexual

Aos 32 anos, Vanessa tem um vida que parece pouco estruturada. Um trabalho que não gosta muito, um relacionamento de idas e vindas (e que agora parece ido mesmo) e uma casa que não consegue ficar arrumada por muito tempo. Além disso, ela perdeu o pai recentemente e começou a fazer terapia para aprender a lidar com o luto.

O que chama sua atenção no começo da historia é que uma moça que estudou no mesmo colégio interno que ela, havia acabado de fazer um post no Facebook detalhando o abuso sexual que sofreu nas mãos do professor de literatura, Strane.

Vanessa está inquieta. Ela teve uma relacionamento com Strane em seus anos no colégio interno. Mas, mesmo com a diferença de idade, ela com 15 anos e ele com 42, foi diferente. Foi consensual. Com ela foi de verdade. Eles se amavam. Ou não?

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A história alterna entre presente e passado – conhecemos a história da Vanessa de 32 anos lidando com sua vida adulta e a jovem de 15 anos se descobrindo sexualmente com um Professor mais velho.

Há choques reais ao sabermos, por exemplo, que mesmo 17 anos após o acontecido, ela continua em contato com Strane. Ou que toda vez que ele foi acusado de assédio, ele a usou como escudo. Ou que ela mesma chegou a definir o que aconteceu como estupro mas apenas para uma pessoa e depois, nunca mais aceitou esse termo.

Russell faz um bom trabalho em explicar para o leitor a angústia constante que Vanessa carrega e o quanto ela é piorada pelo controle que Strane parece ter sobre ela, o quanto isso afeta todos os seus dias e todas as suas lembranças.

Em inglês, o termo “to groom” significa arrumar ou adestrar. Em português, usamos “aliciar”, que leva uma conotação de sedução. Para o que acontece nessa história, o termo “adestrar” me parece mais adequado. Straner vai muito além de seduzir uma aluna. Ele a ensina como se comportar em segredo, como reagir ao que ele pede, como esconder de todos o que acontece. É um treinamento constante em que Vanessa sente que está à beira de um precipício e qualquer movimento errado, ela cairá no abismo. Vai muito além de uma sedução pura e simples.

Ela não só acredita que está apaixonada por ele e ele por ela, como também acredita que quis tudo o que aconteceu. Mesmo que, depois de terem se beijado pela primeira vez ela tenha dito que estava se sentindo “superestranha” e a resposta foi “Espero que no bom sentido”. Em algum lugar, lá no fundo, ela parece saber que tem pouca agência na situação.

Eu não digo, mas às vezes tenho a sensação de que é exatamente isso que ele está fazendo comigo: me desconstruindo, me montando outra vez como alguém novo. (pág. 106)

Ou ainda:

– Que bom. Isso é bom. – Ele estende as mãos e segura as minhas. – É você quem está no controle, Vanessa. Você decide o que a gente faz.

Eu me pergunto se ele acredita nisso mesmo. Foi ele quem tocou em mim primeiro, que disse querer me beijar, que me falou que estava apaixonado. Todos os primeiros passos foram dados por ele. Eu não me sinto forçada e sei que tenho o poder de dizer não, mas isso não é o mesmo que estar no controle. Mas talvez ele precise acreditar nisso. Talvez haja toda uma lista de coisas nas quais ele precisa acreditar. (pág. 111)

As referências a Nabokov vão além do tema. Straner dá uma cópia de Lolita para Vanessa ler. Ela fica obcecada pelo livro e acredita que a história a ajuda a entender o tormento amoroso no qual Straner se encontra. Ele também lhe dá Fogo Pálido do autor, em que uma estrofe fala de uma “sombria Vanessa”. Ele cita Jonathan Swift e sua Vanessa, 22 anos mais jovem, e Edgar Allan Poe e sua esposa de 13 anos também dão as caras. Tudo parece tentar normalizar para a adolescente que a diferença de idade não quer dizer nada.

Agora ela precisa enfrentar a realidade do que ela acreditava ter sido sua primeira história de amor porque aceitar que nada daquilo foi real, é mudar o status de adolescente apaixonada para vítima.

A leitura é fluída e apesar de suas mais de 400 páginas, possível de ler em poucos dias porque o fluxo de consciência, mesmo que às vezes confuso ao simular a própria confusão da protagonista. Pra o leitor, o trauma é claro.

O livro é quase um “coming of age” às avessas. Vanessa precisa voltar aos seus 15 anos para reconstruir quem ela se tornou desde então. É muito significativo que Russell tenha invertido a lógica de Lolita e nos dado um livro do ponto de vista da adolescente não de Straner. Dessa forma, ela trouxe a historia próxima ao nosso tempo, em que movimentos sociais tem escancarado histórias de assédio e abuso em todos os lugares. Não cabe mais uma história contado do ponto de vista do pedófilo. Esta não é uma história de amor.

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Ao ser lançado, o livro gerou burburinho positivo e negativo. A crítica foi receptiva e o livro vendeu por uma soma de sete dígitos, apesar de ser a estréia da autora e foi escolhido pela Oprah para seu renomado clube do livro.

Por outro lado, a autora Wendy C. Ortiz acusou Russell de plagiar seu livro de memórias, Excavations, em que detalha seu relacionamento com seu professor de literatura quando tinha 15 anos e ele, 30. A situação gerou desconforto e apesar do livro seguir o cronograma de publicação normal, o clube da Oprah foi cancelado.

Na abertura de Minha sombria Vanessa, Russell deixa explícito que a história não é inspirada em sua vida real, apesar de ela ter estudado em um colégio interno e ter algumas similaridades com a protagonista. Ela diz que é tudo ficção. Após as acusações de Ortiz, Russell veio a público dizer que o livro foi, sim, inspirado em sua própria vida, mas que ela sempre teve receio de assumir.

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