Resenha – Moll Flanders
por Patricia
em 30/06/14

Nota:

Moll Flanders (capa livro) 00

Moll Flanders é um romance quase biografia, se for necessário detalhar. Daniel Defoe, autor do aclamado Robinson Crusoé, nos conta a vida de Moll Flanders – nome fictício já que a moça passou por poucas e boas e não quer que seu nome seja revelado agora que conta sua versão dos fatos.

Filha de mãe ladra que foi deportada (na época, os ladrões da Inglaterra eram deportados para as colônias) Moll passou a viver às custas do Estado ainda criança. Ela não se demora muito nessa parte, talvez por nem lembrar tanto da fase. Apesar dessa vida não ser das melhores, ela acaba dando sorte e vai morar com uma senhora que ensina muitas coisas sobre os costumes das mulheres da época. Ela aprende tudo rapidamente e começa a sonhar em ser uma ‘dama da sociedade’.

Damas da sociedade eram aquelas que tinham muito dinheiro e viviam de ir a festas e serem vistas como mocinhas bonitas. Algo como as socialites que vemos hoje. Só que para Flanders, ser uma dama da sociedade significava ganhar seu próprio sustento e não ser criada de ninguém. Ser criada era a única perspectiva na época para mulheres mais pobres (porque certas coisas não mudam). Esse discurso fazia as damas de verdade se divertirem e elas lhe davam dinheiro como que por caridade . Ainda que não percebesse, Moll era quase como a boba da corte.

Quando sua benfeitora morre, Moll acaba acolhida por uma senhora rica para que seja companhia de suas filhas. Ela acaba por aprender francês e mais algumas coisas da alta sociedade por tabela. Aos 18 anos, ela já é uma jovem muito bonita e começa a chamar a atenção dos moços da casa. Ela aceita, muito ingenuamente, as investidas do filho mais velho e torna-se sua amante acreditando que ele pretende casar-se com ela quando puder. Só que não.

As coisas ficam mais complicadas quando o filho mais novo diz que deseja casar-se com ela de verdade. Depois de muita dor de cabeça e tristeza pela traição de seu amante (ela diz realmente gostar do filho mais velho de sua Senhora), ela casa com o mais novo e assim fica por 5 anos e 2 filhos. Quando o marido morre, Moll não tem nada em seu nome além de uns trocados e os filhos são tomados pelos sogros. Sozinha e desamparada financeiramente, ela parte para encontrar nova companhia. Casa-se novamente com um comerciante que gasta mais do que pode e acaba falindo. Ela sai da cidade para fugir dos credores e com medo de ser presa.

Mas é no terceiro casamento que os problemas chegam a níveis tensos. Moll agora está mais pobre e seu dote não é suficiente para que consiga um bom marido. Ela precisa, portanto, ser muito astuta para enganar o futuro esposo (amor de verdade começa sempre com umas mentirinhas, afinal). Acontece de eles irem para os Estados Unidos viver da plantação do marido e lá, ela descobre algumas verdades sobre sua família que são não apenas incômodas. São tenebrosas.

Daqui para frente, Moll encontra apenas mais dores de cabeça até sair de seu quinto casamento e enfrentar a decisão de deixar para trás os vários filhos que tivera. Sua vida parecia tomar o inevitável rumo daquele que sua mãe conheceu.

Enquanto transita por seus problemas e tristezas, Moll de vez em quando solta alguns pensamentos fantásticos sobre ser mulher e estar na sua situação. Como, por exemplo: “Eu não posso deixar de lembrar às minhas leitoras a que ponto elas se rebaixam na condição de esposas – a qual, se posso dizer com toda imparcialidade, já é bem baixa -, colocando-se abaixo do estado natural, aceitando ser insultadas pelos homens, o que, confesso, não vejo necessidade de acontecer.”

BAM!

São percepções bem apuradas das relações sociais da época, ditas por alguém que segue à margem – ainda que representando um papel importante nessa mesma sociedade. Querida Moll já tinha pensamentos bem avançados notando, por exemplo, que os homens exigiam das mulheres, muitas vezes, coisas que eles próprios não podiam oferecer em retorno e que aproveitavam-se de certas vantagens sociais para seus próprios benefícios em detrimento da livre escolha das mulheres. Ela sabia desde cedo que as mulheres não eram livres. Ou, pelo menos, não tão livres quanto os homens.

O dinheiro e o debate sobre ter ou não um pé de meia permeia o livro todo – alguns inclusive acreditam que a história poderia ser uma crítica ao sistema que mais tarde ficaria conhecido como capitalismo (o termo ainda não havia sido cunhado na época). Seria viável, pois a vida de Moll e todas suas escolhas – e seus erros, consequentemente – giram em torno de conseguir um bom dote e uma maneira de viver bem – ser a ‘dama da sociedade’. Com isso, ela deixa de lado a moral cristã e comete alguns dos piores crimes que uma “dama” da época poderia cometer. Suas escolhas provam que algumas pessoas são realmente capazes de tudo em nome do dinheiro e do que imaginam ser ‘a vida ideal’.

O livro é bom, mas pode ficar um pouco arrastado em alguns momentos. Ainda assim, a primeira coisa que podemos notar é que a linguagem é extremamente simples. De maneira nenhuma parece um clássico publicado em 1722. Defoe consegue dar voz a Moll de uma maneira objetiva, inclusive eliminando um sentimentalismo exagerado que poderia aparecer em certas ocasiões.

Bom clássico. Vale ter na estante!

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3 Comentários em “Resenha – Moll Flanders”


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Tamy Ghannam em 29.09.2015 às 20:47 Responder

Que texto excelente! Recentemente li Moll Flanders e fiz um vídeo para o meu canal. Agora pretendo escrever um texto relacionando-o com A Dama das Camélias e Lucíola e por isso andei pesquisando sobre eles. Sem dúvida essa resenha foi a melhor que encontrei sobre o livro de Defoe. Já acompanhava o Poderoso pelo instagram e agora serei leitora assídua do blog. Sucesso! Beijos

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Patricia em 30.09.2015 às 11:47 Responder

Ahh…que lindeza de comentário!!! <3 <3
Obrigada pela visita e vou esperar o vídeo! 😀
Bjos!

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desiane em 25.04.2016 às 23:38 Responder

Ótimo resumão!!!Parabéns!!


 

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