Resenha – Morra, amor
por Patricia
em 05/07/21

Nota:

Se tem uma coisa que toda menina vai ouvir pelo menos uma vez na vida, é como ela precisa se preparar para ser mãe e cuidar de uma casa. Direta ou indiretamente, descobrimos muito cedo o que é esperado de nós como membros da sociedade. Seja pela tia que nos dá bonecas toda data comemorativa para “brincarmos de ser mães” ou pelo forninho no qual devemos “brincar de cozinhar”.

Muito já se foi discutido sobre o que acontece se não cumprimos nossos deveres sociais como mulheres. Mas cada vez mais se discute o que acontece quando o cumprimos e dá tudo errado. A desilusão da maternidade, por exemplo, tem sido um tem cada vez mais premente e proeminente na literatura contemporânea.

“Morra, amor”, da argentina Ariana Harwicz, entra na discussão sobre a maternidade com dois punhos furiosos. Nas primeiras páginas já sabemos que temos uma narradora atrofiada na vida. Com o nascimento de seu filho, ela deixou de lado hobbies que gostava e até a higiene pessoal. Tudo gira em torno da criança e de sua família.

E eu sou uma mulher largada que tem cáries não lê mais. Leia, idiota, digo a mim mesma, leia uma frase inteira. Aqui estamos, os três juntos para uma foto de família. (pág. 7)

A narrativa corrida, com parágrafos longos nos entregam uma dimensão dos pensamentos da narradora que vai de um lado para outro, de um assunto para outro, quase sem racionalizar como quem não consegue parar para desenvolver um pensamento completo do começo ao fim. Ao lermos suas palavras, muitas vezes ficamos confusos com o que ela vê ou quer e não existe explicações claras para algumas atitudes. Nem ela parece entender de verdade o que faz e os motivos que a levam a isso.

Tudo isso nos leva junto com ela à beira do abismo de onde ela não consegue decidir o que fazer. A auto-sabotagem parece quase um bote salva-vida e assistimos, impotentes, a ela tentar sentir algo que não seja desespero, ainda que por vias questionáveis. Em alguns momentos, seus pensamentos beiram a loucura ou o ápice do politicamente incorreto:

Foi de mal a pior e não eram nem duas horas ainda. Estou cansada de não ser correto andar por aí dando tiros de espingarda ou ofendendo o bebê. (pág. 78)

Cenas violentas permeiam o livro todo em um contraste impressionante com a vida em uma pacata cidade rural na França, onde a história se passa. As semelhanças com “A redoma de vidro” de Sylvia Plath são fortes, apesar de Plath não tratar especificamente da maternidade, pois temos duas protagonistas que precisam ser internadas em uma clínica de modo a tentar alcança o status de “normalidade”. O marido e os familiares parecem não ter conhecimento do quão profundo é seu desespero. O que também reforça um aspecto importante de doenças mentais: a solidão que vem atrelada a elas. Mesmo ao leitor que acompanhar a jornada, só nos resta dividir o desconforto constante.

Publicado originalmente em 2012 e indicado ao Man Booker Prize, “Morra, amor” chegou ao Brasil pela Editora Instante apenas em 2019 e faz parte do que a autora chama de sua trilogia sobre maternidade intitulada “Trilogia da paixão”. Os outros dois livros que compõem essa trilogia, “A débil mental” e “Precoce”, já foram publicados no Brasil.

Um livro para se ler de uma única vez, sem respirar. Tal como a protagonista parece viver.

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2 Comentários em “Resenha – Morra, amor”


Lady Sybylla em 09.07.2021 às 15:18 Responder

Tô com esse livro no Kindle, mas uma amiga que leu disse que tem que ler no momento certo. Pra mim esse momento não chegou ainda. Ótima resenha!

Patricia em 10.07.2021 às 18:48 Responder

Definitivamente tem que ter um momento certo.
Tem muita coisa, de certa forma, violenta no livro. Coisas que ela pensa que deixa a gente desconfortável demais.

Obrigada pela visita! :**


 

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