Resenha – Morte súbita
por Patricia
em 12/11/13

Nota:

Unknown

Acho que não é necessário apresentar J.K. Rowling, certo? Pessoalmente, como fã de Harry Potter, acredito que mesmo quem não goste dos livros, sabe uma coisa ou outra sobre a autora. Com o fim da saga do jovem bruxo, ninguém sabia qual seria seu próximo passo. Como superar algo tão grande?

Morte Súbita é a tentativa da autora de sair do universo jovem. O livro não tem nada de adolescente e é pautado na mais pura realidade (no sentido de que não temos passagens secretas e dementadores…o que, confesso, me deprimiu um pouco. ;)).

Em um pequeno vilarejo da Inglaterra – Pagford – um membro do Conselho morre subitamente (wink, wink) por causa de um aneurisma. Utilizando o recurso de vários pontos de vista, a autora nos mostra que uns ficaram muito tristes e outros sentiram uma emoção bem diferente.

Aos poucos, Rowling nos guia por um emaranhado de interesses políticos que superam, muitas vezes, o senso comum. Pagford tem uma rixa de muitas décadas com o vilarejo vizinho quem vem piorando há sessenta anos quando eles – tentando suprir a necessidade de moradia barata e de construção rápida gerada pela guerra – criaram um bairro muito próximo da divisa e ocuparam um espaço que as pessoas de Pagford consideravam seu. E pior , nos lindos jardins surgiu um bairro pobre e mal cuidado. O contrário do que Pagford deveria representar.

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O cenário está traçado: alguns conselheiros querem, de toda forma, fechar uma clínica de reabilitação da cidade e mudar as regras para o bairro…não desejado. Não posso atestar para outros Estados, mas em São Paulo, esse cenário é quase natural. Quem não se lembra do papo de “gente diferenciada” quando surgiu a idéia de um metrô no rico e antigo  bairro de Higienópolis? É….algo do tipo.

O que vemos no Conselho do vilarejo é o começo de políticas que pretendem isolar os pobres ou, se alguns conseguirem o que querem, removê-los de sua responsabilidade. Me lembrou muito um post fantástico que li há poucos dias sobre o plano diretor de SP e como a urbanização de uma cidade pode gerar verdadeiros apartheids entre ricos e pobres. Vale a pela conferir se tiverem tempo (clique aqui).

O livro retrata uma clássica guerra entre classes. Mas, no melhor estilo J.K, não é apenas isso que acontece. Ela envolve na trama toda a questão de adolescentes descobrindo-se em um mundo estranho e pais que não sabem lidar com isso; adultos em relacionamentos frágeis e uma frustração constante; o poder subindo à cabeça e a realização de que ação e reação são princípios extrema e, muitas vezes, dolorosamente reais. Vemos claramente que ninguém está impune de segredos e que adultos podem agir com crianças quando as circunstâncias se apresentam.

A premissa é realmente simples. O que traz peso ao enredo é a consciência política de cada um e o interesse em determinados assuntos. Não é surpresa ver que J.K escolheu para seu primeiro livro depois de Harry Potter uma história que ela conhece tão bem na vida real – sim, porque J.K estaria do lado pobre da história. Do lado de quem dependeu de ajuda do Governo por um tempo na vida. Ela retrata essa realidade cinza de uma vida sem muita possibilidade.

Pessoalmente, sempre achei que o maior diferencial da J.K para xs demais autorxs de livros jovens é que ela sabe escrever de verdade. Ela não cria uma história apenas, ela desenvolve mil personagens, cria mundos e sabe guiar o leitor por enredos complexos. Algo que sinceramente, ainda não encontrei nos livros de sucesso de outrxs autorxs de literatura jovem que vieram depois dela (abro uma exceção de leve para Rick Riordan). Houve uma simplificação na maneira que as histórias para esse público são narradas…e J.K. não parece fugir do que é difícil.

Morte súbita exige um ritmo de leitura diferente. Não é tão envolvente como Harry Potter que te carrega na história pelo livro todo em apenas uma tarde. Esse livro merece uma degustação mais profunda. Se você olhar bem, reconhecerá características desses personagens em muitas pessoas que fazem parte da sua vida. J.K está falando de pessoas de verdade. Falhas, complicadas, estranhas, incoerentes e tudo o mais que faz de cada um de nós o que somos.

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4 Comentários em “Resenha – Morte súbita”


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Gabriel em 12.11.2013 às 08:48 Responder

Já estava curioso por esse livro faz tempo, como alguém que curtiu muito os livros do HP na época… mas nem imaginava esse contexto político todo no roteiro. Muito mais animado pra ler agora! Parece bem bom!

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Paty em 12.11.2013 às 08:53 Responder

Acho que contexto político depende muito de quem lê. Li resenhas em que comentavam apenas dos dramas familiares como se a questão política não estivesse presente.
Para mim, no entanto, foi muito forte a idéia de ricos X pobre ainda que o livro não tenha se proposto a resolver isso.
Sabendo que vc também curte uma festa política, acho que vc também vai notar esse contexto bem rápido. 😀

Ragner
Ragner em 12.11.2013 às 16:18 Responder

Mega interessado no “O Chamado do Cuco”, mas ainda lerei esse.

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Paty em 12.11.2013 às 19:38 Responder

Eu tbm!!! Ainda mais depois de ver que o talento dela permaneceu intocável na literatura adulta. =D


 

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