Resenha – Mundos de vidro
por Poderoso
em 11/11/20

Nota:

Por Raphael Pantet

A influência e longevidade do século XIX é tema de estudo / fascínio até hoje, dada a quantidade de inovações, turbulências e ideias em disputa. As descobertas científicas concorrendo no mesmo espaço de seus críticos, os primeiros sistemas de saneamento básico, a intensa vida pública das cidades e da boemia me interessam, beirando a ingenuidade – vejo uma certa ideia de uma Europa do romance dos trens, do cosmopolitismo de capitais como Viena e Paris. Todo esse agito do longo século interessa também ao escritor italiano Alessandro Baricco. Muitos de seus livros se passam na época e parece de caso pensado seu romance de estréia, Mundos de Vidro (1991, publicado pela Rocco e tradução de Elia Ferreira Fedel) – a contracapa fala dos anos 800 no sentido italiano (“ottocento”), não se trata do século IX.

Jornalista e crítico musical anteriormente, o autor começou a engatinhar na ficção quando foi coautor de um roteiro, nunca filmado, sobre o cantor castrato Farinelli do século XVIII, e decidiu seguir no ofício e parir este livro.

Ambientado numa pequena cidade fictícia da Europa, Quinnipak, Baricco narra uma série de histórias entrelaçadas neste local, de forma não-linear, onde toda a população procura lidar com frustrações de sonhos impossíveis – o título em italiano é Castelli di rabbia, “castelos de raiva”.

Os personagens parecem ser uma celebração de todos os pontos possíveis do continente: entre os personagens principais temos Dann e Jun Rail, donos de uma fábrica de vidros num casamento com rituais peculiares; Pekisch, obcecado por sons e criador de instrumentos improváveis; Pehnt, uma criança à espera de cumprir seu destino; Hector Horeau, o arquiteto da impossibilidade; Mormy, o garoto observador; e a viúva Abegg, cujo marido era mais interessante morto do que vivo. Ainda há personagens com nomes como Andersson, Marius Jobbard, Bonetti e Bonelli para compor esta Europa atomizada.

Sob o signo da décima Elegia de Duíno de Rainer Maria Rilke – os quatro versos da última estrofe do poema são usados para separar os atos do romance – a premissa se demonstra interessante, mas infelizmente o estilo do autor trava e derrota a obra. O início tem bom andamento, mas dá indícios de excessos desnecessários, o momento onde o ritmo se quebra por completo é por volta da página 50, quando Baricco passa quase dez páginas falando aleatoriedades sobre trens – o Sr. Rail decide comprar uma locomotiva para sua esposa… sim, o Sr. “Ferrovia” em inglês faz isso -, inventadas ou não, a sonolência e desinteresse me impediram de validar qualquer coisa no Google. A partir daí os problemas estilísticos se agravam, o autor padece de um beletrismo verborrágico um pouco inacreditável, abusando de repetições de palavras e da noção (errada) de que para se escrever romances deve-se escrever “bonito” – imagino-o em sua mesa dando tapinhas nas próprias costas para se parabenizar.

Em entrevista à Folha de São Paulo em 1999, Baricco disse “meus livros parecem escritos há cem anos”, talvez uma explicação para algumas opções de estilo e trama – o autor identifica inconsistências narrativas como um traço comum às obras da época, e desejável neste livro. Se foi uma opção consciente de imitar um romance oitocentista, ela parece uma sátira e um reflexo de um trabalho mal escrito da época – e a ineficácia do recurso seria explicada pela confusão entre forma e conteúdo: ao tentar satirizar ou fazer um pastiche da época e do que seria considerado uma obra medíocre, Baricco acabou por tornar a sua como tal.

Ao longo da história há alguns momentos interessantes e frases bonitas, com maior frequência quando o romance se aproxima de seu final, bem como momentos engraçados do personagem Pekisch: no início, quando tenta estudar a propagação do som num longo tubo, e no final, em suas cartas ao falar de corretores de seguros. Os excessos são diminuídos conforme chegamos ao fim – talvez por cansaço do autor ou por intervenção do editor. Todavia não é o suficiente para elevar o nível geral. Fica a sensação de uma oportunidade desperdiçada, e de que teríamos mais a receber do livro se o narrador se interessasse em falar sobre os personagens, e não chamar a atenção para si, ou deixar muito claro quais trechos você deve achar bonitos e sublinhar porque seu interesse deveria estar no narrador. Pequenas frases feitas para compartilhamento antes mesmo das redes sociais surgirem. Talvez Baricco seja um visionário.

***

Jun estava com a cabeça apoiada no peito do Sr. Rail. Fazer amor assim, na noite em que ele voltava, era um pouco mais bonito, um pouco mais simples, um pouco mais complicado que em outra noite qualquer. Havia algo, como o esforço para se lembrar de alguma coisa. Havia um temor sutil de descobrir não se sabe o quê. Havia a necessidade de que, de qualquer forma, fosse belíssimo. Havia um desejo um pouco impaciente, um pouco feroz, que não tinha nada a ver com amor. Havia um punhado de coisas.

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