Resenha – No fundo do oceano, os animais invisíveis
por Juliana Costa Cunha
em 10/05/21

Nota:

Entre os anos de 72 a 75 tivemos em nosso país, o movimento mais longo de resitência à ditadura militar – a Guerrilha do Araguaia. Nela, 69 pessoas entraram em combate contra 10 mil soldados das forças armadas brasileira em plena floresta amazônica. Este é mais um capítulo nebuloso de nossa história, do qual ainda temos muito a desbravar. E é com essa passagem histórica que Anita Deak situa parte da vida de Pedro Naves, personagem de No fundo do oceano, os animais invisíveis.

Pedro Naves nasceu numa cidade chamada Ordem e Progresso, filho de um grande fazendeiro, criador de gado. Ordem e Progresso está situada no constante conflito entre a agropecuária e as terras indígenas da região. Mas estas questões não são percebidas pelo Pedro Naves criança. Assim como ele também não se importava com o ritual de seu pai que abatia um animal sempre que um filho nascia. Pedro era o terceiro. Antes dele, duas irmãs. Depois dele, mais um. A relação de Pedro e os animais, na infância, se dá pelo viés da subsistência e o abate para comemorar o nascimento. A despeito disso, o menino Pedro, cria fantasias em sua cabeça e nelas estão os animais invisíveis.

O universo do nosso personagem é masculino. Permeado pelos mais profundos estereótipos da masculinidade. Mas Pedro tem um professor chamado Belisário, que está sempre com muitos livros na bolsa e os empresta. A literatura e, principalmente a poesia, passam a ser companhia e inspiração. E é através da descoberta do universo das palavras que Pedro vai encontrando novos caminhos e construindo novos pensamentos sobre o que lhe cerca. É aí então que a personagem sai de Ordem e Progresso e começa a perceber a vida sob uma outra perspectiva. Na faculdade conhece Sara. O pai de Sara é do partido comunista e tem uma biblioteca em casa que vai sendo lida pelos dois. Estamos, então, na ditadura militar no Brasil e Pedro começa a se inserir no contexto da luta armada, tornando-se Lucas, desempenhando algumas ações, passando por tortura e escapando em dado momento, para então adentrar na floresta amazônica e fazer parte da guerrilha do Araguaia.

Escrever esse texto assim, a meu ver, não é spoiler. Isto por que, esta parte mais linear da narrativa me parece pano de fundo pra uma outra história que é narrada através do que eu considero outros dois personagens no livro – o tempo e a natureza. Anita faz uso de uma narrativa que vai do passado ao futuro e volta ao presente às vezes num mesmo parágrafo. Eu demorei um pouco pra me situar nessa forma narrativa. Mas depois que me entendi com ela fluiu bem. E acho que consegui me entender com ela por que percebi que o passado, o presente e o futuro eram partes de um mesmo momento e de uma mesma pessoa, Pedro Naves. O tempo o constituia em todas as fases de sua vida e ele estava em busca de si mesmo e de sua história o tempo todo.

A natureza é um outro personagem importante na narrativa da autora. Ela não só compõe cenário, mas conversa com a personagem. Se transforma em seres invisíveis e imaginários. Mostra a Pedro que existem outras formas de relação entre homem e natureza, além da que ele conheceu enquanto criança, pautada no desmatamento para pasto e no abate pra comemorar a vida. Há nessas passagens em que a natureza é personagem uma beleza ímpar. É quando Pedro descobre que tem senso de orientação em mata fechada. É quando ele se depara com a contemplação de paisagens. É quando ele se abre ao amor de uma cachorra, fiel companheira até seus últimos momento, numa passagem que me emocionou muitíssimo, por ser uma homenagem linda à personagem Baleia de Graciliano Ramos. Não à toa Pedro rouba Vidas Secas da biblioteca. Pedro ressignifica seu lugar no mundo e sua relação com a natureza.

Este é um livro que requer uma leitura atenta, pois os detalhes contam muitas histórias. E é um livro onde a sinestesia está presente desde a primeira frase. Deixe-se guiar.

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2 Comentários em “Resenha – No fundo do oceano, os animais invisíveis”


Valéria Martins em 12.05.2021 às 17:58 Responder

Que linda leitura e que riqueza de resenha. Obrigada, Juliana, por ser tão boa leitora. O livro é tudo isso: sons, cheiros, tato. Os cinco sentidos estão presentes e contam histórias na literatura de Anita Deak. Valeu! Obrigada a todos do Poderoso Resumão! Grande beijo em todos

Juliana Costa Cunha em 14.05.2021 às 17:39 Responder

Oi Valéria, fico feliz por seu comentário. É um livrão.
Obrigada pela partilha. bjs


 

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