Resenha – No horizonte, a terra
por Juliana Costa Cunha
em 09/11/20

Nota:

“a morte chega cedo pois breve é toda a vida”

Fernando Pessoa

É com esta epígrafe que Danielle Sousa abre seu livro de estreia. E eu sou aquela pessoa que adoro epígrafes, pois acho que elas não são escolhas aleatórias. São escolhas que falam sobre a história que leremos logo mais. Então, No horizonte, a terra nos apresenta 4 contos nos quais a morte permeia as narrativas.

Barboquivari vai nos contar a história de Hermínio que vive o sonho de passar a fronteira e ter uma vida melhor nos EUA. Acompanhamos ele e mais um grupo que se coloca nessa aventura em busca do sonho americano. Caminham por léguas, passam perrengue, sentem sede e ficam ao sol escaldante até conseguir chegar ao seu objetivo. Algumas pessoas desse grupo chegam. Outras não. A visão do pico do Baboquivari, lugar sagrado para o povo daquele lugar e morada do deus I’itoi, que representa o Homem do Labirinto é momento crucial da travessia. Depois dele chega-se a cidade. Termina a travessia. Será?

Antônia, segundo conto do livro e no qual são possíveis tantas interpretações… Uma mãe que escreve cartas para sua filha Augustina. E no caminho do conto vamos entendendo que esta filha ficou sem a mãe desde muito pequena. As cartas são a forma que a mãe encontra de tentar se reaproximar de sua filha. Mas é uma aproximação permeada de entrelinhas. Talvez dizendo a ela a urgência em finalmente de encontrarem? Quais os caminhos de pertencimento e de afastamento entre mães e filhas? Qual o percurso pra esse reencontro quando às vezes não se tem mais tempo pra ele ou mesmo a presença física da pessoa?

Em História em seis movimentos, conhecemos uma família que se reúne numa casa grande, de uma família grande e tradicional para acompanhar os últimos dias de vida de Vó Aurélia, que sempre gostou da casa cheia. A personagem narradora não tem nome, mas é a esposa de Júlio e tida como filha de Vó Aurélia. Ao longo do conto vamos conhecendo a vida de abusos sofridos pela personagem e sua verdadeira paixão por Miguel, irmão de Júlio. Esse é um conto que aborda uma morte pra falar de renascimento. É nesse rito de passagem de Vó Aurélia que nossa personagem principal faz o seu rito de liberdade. Um conto em que as entrelinhas falam muito.

Tire o L da Lira, tem uma referência direta a Alvares de Azevedo e narrado em segunda pessoa. O título do conto já anuncia isto – A lira dos vinte anos, obra renomada do autor. E a personagem principal chama-se Alvares. Seus amigos são Bernardo (de Guimarães) e o Aureliano (Lessa). Os três autores referenciados no conto, juntos, fundaram a Sociedade Epicurista. É um conto que se passa numa São Paulo do século XIX, onde um grupo de jovens estudantes de direito vivem em uma espécie de república e vivenciam seus encontros e desencontros de adolescentes. Esse conto tem uma aura de suspense e nos remete a precariedade da vida.

Eu gostei muito dessa leitura e também gostaria de fazer uma referência à edição do livro, que é da independente Editora Escaleras. Uma edição super bonita, bem diagramada, colorida e ilustrada. Uma lindeza.

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Livro enviado pela autora

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