Resenha – Norte e Sul
por Patricia
em 08/04/14

Nota:

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Mais um livro para o projeto #LeiaMulheres. \o/ Para quem não sabe do que estou falando, clique aqui.

Norte e Sul nos apresenta Margaret Hale, filha de uma mulher que casou por amor com o pastor de uma pequena cidade pacata no sul – Hampshire. Ela passa uma temporada com uma rica prima na cidade grande ajudando-a com os preparativos para o casamento – com um homem rico, claro.

Ao contrário do que imaginamos, Margaret não percebe sua condição como pior que a da prima. Pelo contrário. Ela prefere andar sozinha pelos bosques de sua cidade aos luxos que encontra. Ela é uma moça simples. Não gosta de chamar a atenção e não tem muita malícia nas atitudes. Tanto que é com surpresa que ela recebe a declaração de amor de Henry Lennox (irmão do Coronel que deve casar-se com sua prima). Em sua ingenuidade, ela simplesmente não sabe como corresponder ao que ele quer.

Em um belo dia, o pai de Margaret solta uma bomba: eles precisam se mudar porque seus votos religiosos estão ameaçados. A família muda para Milton – uma cidade industrial. O baque é imediato e Margaret sente-se sozinha e isolada. Os homens a tratam com interesse explícito, mas ela não se sente confortável com isso (cantadas de rua enchendo o saco desde 1800). Ela só se sente bem, de fato, quando encontra um contato humano mais sincero em um pai cuja filha parece sofrer de alguma doença séria. Nicholas Higgins é operário e membro do Sindicato e sua filha sofre de tuberculose graças a seu trabalho na fábrica de tecidos.

Em Milton, o pai de Margaret vive de dar aulas particulares para jovens filhos de industriais e para o Sr. Thornton – um homem muito rico da região. A Sra. Hale sente a mudança profundamente e fica cada dia mais doente. O isolamento da família é ainda maior quando notamos que ali, os estados do sul são vistos como ‘aristocráticos’, lugares onde maridos ricos são as presas mais cobiçadas. Ou seja, há um enorme preconceito que diz que sulistas são todos esnobes que vivem despreocupados em trabalhar porque herdam seu dinheiro. Sr. Thornton mesmo é um industrial que – em suas próprias palavras – vê todos aqueles que não alcançaram sucesso similar ao seu como inimigos – pobres, doentes, mendigos, operários – todos são inferiores porque não são ricos. Margaret, por sua vez, nutre um honesto desgosto por comerciantes e industriais.

Esse é o cerne de todo o livro. A, inicialmente, ingênua e passiva Margaret – uma sulista que adora seus campos, colher flores e não se preocupa muito com arranjos matrimoniais – encontra-se presa em uma região onde o dinheiro se ganha através da ação de máquinas e ser rico por meios próprios é sinônimo de competência e superioridade, ainda que isso signifique quebrar algumas leis (leis são para pobres, grita Eike Batista no fundão).

O pano de fundo do livro é, portanto, a luta de classes.

Margaret é uma ótima protagonista feminina – ela amadurece rapidamente para ser dona de suas próprias opiniões. É ela quem assume a direção das mudanças da família quando o pai parece sucumbir ao seu ‘quase pecado’ e a mãe torna-se cada vez mais ausente. Sua transformação de menina ingênua para mulher opinativa é rápida na cidade grande, como tem que ser quando se ‘nada com tubarões’.

O livro tem suas reviravoltas e uma história paralela de romance e de drama familiar. O enredo romântico me lembrou bastante Elizabeth e Mr. Darcy de Orgulho e Preconceito – com direito a uma redenção do pobre homem rico. Então quem não se interessar pelo conteúdo político, pode se interessar pelo romance que ainda é parrudo e bem construído. Tem que ter muito talento para equilibrar romance e debate político, mas Gaskell consegue fazer isso com muita destreza.

A autora escreve muito bem, de maneira fluída e constrói sua história sem pressa, sem artifícios forjados e com muita clareza nas posições políticas de cada personagem. Norte e Sul é daqueles livros gostosos de ler, que carregam o leitor em uma suspeita de que algo está para acontecer não se sabe quando. Depois que o enredo pegou ritmo e o conflito de classes ficou claro, foi quase impossível parar de ler. Apesar de dar voz a quase todas as partes interessadas, é inegável que Gaskell é a favor do operário. O livro definitivamente tem conteúdo para todas as suas páginas mas com um vocabulário bem acessível que não é extremamente rebuscado.

Norte e Sul foi publicado em 1854, momento em que o mundo debatia muito a questão do capitalismo e seus efeitos na sociedade. Marx já estava publicando estudos sobre o assunto há quase uma década. Temos aqui um romance com um cunho muito mais profundo do que pode parece à primeira vista, mas não se engane, o debate político não é feito por metáforas. Ele está todo aqui na cara do leitor e não tem para onde fugir. Até porque, parte da discordância entre Margaret e o Sr. Thornton vai servir para apimentar um pouco o enredo mais para frente. A maneira como Gaskell insere esse ‘subcontexto’ na história é realmente incrível.

Esse é mais um clássico que terminei pensando “porque não li isso antes?”

Entrou para a lista de preferidos, fácil!

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