Resenha – Nossa parte de noite
por Poderoso
em 07/10/21

Nota:

Por Gabriel Pinheiro

É difícil categorizar Nossa parte de noite, novo romance de Mariana Enriquez. É uma das melhores histórias de terror que já li, no diálogo entre o horror sobrenatural e aquele muito próximo, que não diz de fantasmas ou espectros, mas do próprio humano e da sua capacidade em infligir dor. Mas é também a história de um país: de uma ditadura brutal e de uma frágil democracia que se reconstrói a duras penas. Por vezes, é como uma road novel, acompanhando Juan e Gaspar, um pai médium e seu filho, pela estrada e os encontros e perigos à espreita. E é uma saga familiar: as muitas gerações e transformações ao longo dos anos de uma tradicional e poderosa família e o alcance de suas garras sobre o poder e a política argentina no século XX.

Neste romance de fôlego, ao longo de suas mais de 540 páginas, Mariana Enriquez cria toda uma mitologia ao redor de uma sociedade secreta – a Ordem -, seus dogmas, ritos sexuais, liturgias sombrias, a verdadeira via crucis de vidas torturadas e sacrificadas em nome da almejada eternidade e uma herança maldita, de sangue. Diferentes saltos temporais e espaciais nos levam do vizinho latino-americano na década de 80 para a Nigéria no início do século passado e para Londres nos anos 60, descrevendo a origem e o desenvolvimento desta seita e de seus praticantes.

Mariana Enriquez tem um controle soberbo da escrita. Dividido em seis partes, o livro é construído com diferentes vozes narrativas, em primeira e terceira pessoa. Ora um registro mais íntimo no calor dos horrores descritos, ora em um ponto de vista mais distanciado de um narrador-observador. O texto pode pular de momentos de lirismo para outros que beiram o gore, enquanto noutro se inspira na crônica jornalística – numa das minhas partes favoritas de toda a narrativa.

É interessante como cada uma de suas partes também funcionaria bem de forma independente – se lançadas como contos, novelas ou breves romances -, focando em diferentes vozes e temporalidades. Lidas em conjunto, jogam luz ao mistério intrincado acerca de um pai que busca evitar que o destino de seu filho seja uma repetição de seu próprio presente: corpo e alma sugados com voracidade por esta seita ocultista.

Perseguição, crianças raptadas, desaparecimento de jovens nunca mais encontrados por suas famílias – sejam com vida ou, ao menos, os ossos que resistem ao tempo -, violências descomunais de torturas indizíveis e assassinatos. Aqui descrevo atos perpetrados por este culto criado por Mariana Enriquez, mas também digo de um período sombrio da história de um país: do golpe militar e da violência do regime ditatorial. No romance, a autora volta a falar sobre a ditadura argentina, em uma chave interessantíssima: na relação entre a Ordem e o governo, nos diferentes espelhamentos entre as violências e as obscenidades de ambos. Nos dois, a morte e a brutalidade estão na busca pelo poder. Pela manutenção de um poder que tem como base o medo. Em um e noutro circulam fantasmas, espectros – vidas que findam no horror e na dor, que não descansam, seguem assombrando.

“(…) os apelos e os gritos e os tiros se tornaram insuportáveis, quando foi cercado por ecos de assassinados com os olhos vendados, os pés amarrados, alguns com o rosto ou o corpo inteiro inchados, outros rastejando dentro de sacos de estopa, uma legião que ele não poderia fazer desaparecer.”

Mariana Enriquez cria em Nossa parte de noite um caleidoscópio de referências poéticas, musicais e da cultura underground, caminhando também pela religiosidade latina e suas superstições, pela cosmologia indígena – especialmente dos guaranis – , além de textos e práticas ocultistas que influenciaram diferentes seitas ao longo da história. No campo da ficção, Enriquez dialoga fortemente com Lovecraft, no desenvolvimento e nas descrições de seu culto, os rituais para a invocação de deuses e as portas que conectam nosso mundo a um “outro lugar”; e com Stephen King, no sobrenatural que invade a vida comum de um grupo de crianças nos anos 80, atraídas por um casa abandonada na vizinhança – e as consequências definitivas na vida dos jovens.

Este novo romance de Mariana Enriquez é permeado pelo sobrenatural, essa escuridão faminta, voraz. Mas o que há de mais assustador aqui é o humano: a escuridão que não está no além, mas dentro do próprio ser – nossa parte de noite.

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