Resenha – Not that bad
por Patricia
em 24/05/21

Nota:

Gatilho: Violência sexual

Meu primeiro contato com Roxane Gay foi em Bad Feminist (no Brasil traduzido – de maneira deprimente e aparentemente inspirada em um filme de sessão da tarde – como Má Feminista – Ensaios Provocativos de Uma Ativista Desastrosa, publicado pela Novo Século). O livro me deu o que pensar sobre o status de feminista do qual tanto se discutia na época. Logo depois, li Difficult Women (Mulheres difíceis) e aí veio Fome – ambos publicados no Brasil pela Globo Livros. Com essa sequência avassaladora, Gay se tornou uma autora que passei a acompanhar de perto. Acompanho seu twitter e seus textos no Medium. Principalmente, acompanho seus lançamentos que ainda não foram publicados no Brasil. Not that bad (Não tão ruim, em tradução livre) é um deles.

Lançado em 2018, o livro reúne diversos ensaios para discutir a cultura de estupro. O lançamento veio na esteira da revelação de que a autora sofreu um estupro coletivo quando tinha doze anos – fato que ela abre mais, junto com as consequências, em Fome. A ideia da obra veio quando ela se deu conta de quanto tempo passou dizendo a si mesmo que o que ela passou “não havia sido tão ruim assim”. Afinal, aqueles meninos não a mataram. E essa racionalização a levou a questionar como é viver em uma sociedade em que o termo “cultura de estupro” sequer existe. “Como as mulheres vivem sabendo que parece ser uma questão não de se, mas quando terão que enfrentar algum tipo de violência sexual?”, ela pergunta na Introdução.

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Leio o livro enquanto acompanho a investigação de uma figura gigante da cultura underground dos anos 90 – Marilyn Manson – acusado de assédio sexual e muitas outras coisas por diversas mulheres; e assisto a queda de David Dobrik, Youtuber com em torno de 20 milhões de seguidores (quando escrevo esta resenha) em seu canal cujo foco são pegadinhas duvidosas que, recentemente, perdeu todos os seus patrocinadores e a monetização da plataforma quando mulheres vieram à público contar suas experiências com Dobrik e seu grupo de amigos desajustados. Os relatos vão desde dar bebidas alcóolicas a menores de idade até o incentivo para que seus parças se aproveitassem de mulheres bêbadas.

Esses são apenas os casos mais recentes. Sabemos que a lista é longa e, cada vez mais, parece infinita.

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Gay tem o complexo trabalho de ser mediadora de histórias difíceis que, de alguma forma, demonstram aos leitores o que é a cultura de estupro. Não apenas o ato em si, mas tudo o que o concretiza.

No primeiro ensaio, Aubrey Hirsch, professora de escrita, tem que explicar para um aluno que o texto dele soa como abuso apenas para ouvir que “não é, porque é a história de como ele e a namorada ficaram juntos pela primeira vez.” Ele simplesmente não sabe o que fez, ainda que a suposta namorada estivesse bêbada demais para lembrar.

Lynn Melnick, poeta de 42 anos, conta como costuma ser chamada de diversos nomes na rua, mesmo com a filha de quatro anos junto. Ela lista os lugares que tem medo de frequentar desde que seus seios despontaram fazendo com que homens, principalmente mais velhos, se sentissem no direito de comentar sobre seu corpo. “Ficar mais velha não era para ser uma segurança contra esse tipo de coisa?”, ela resume.

Brandon Taylor fala sobre como é estranho ver seu tio estuprador morrer de câncer depois de desejar vê-lo morto por tanto tempo.

AJ McKenna explica como foi difícil lidar com sua disforia de gênero até se entender como mulher trans e sua terrível primeira experiência sexual com uma mulher, jogando luz no abuso que também é cometido na comunidade LGBTQIA+. Ou contra integrantes dessa comunidade, como Miriam Zoila Pérez escreve quando percebe que grande parte das mulheres com ela já se relacionou em sua vida foram vítimas de abuso em algum momento.

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As vozes escolhidas formam um espectro assustador de como somos todos afetados por uma cultura permissiva demais com o que não deveria acontecer. O recorte de gênero e sexualidade prova que não existe uma vítima típica, apesar das mulheres sofrerem a maior parte desses ataques. O livro apresenta uma diversidade premeditada e necessária para demonstrar que a cultura do estupro não é própria de um país e nem mesmo é específica a uma religião. Hoje, ela permeia tudo. Ainda assim, os ensaios não são todos do mesmo nível. Alguns são bem melhores que outros, mas o resultado final é coeso.

As histórias não são inéditas no sentido que, se você está prestando atenção, já ouviu alguma similar em algum lugar: seja nas páginas de notícia, seja na sua roda de amizades, seja na sua própria família. É um assunto tão complexo que governos não parecem saber o que fazer. Como esquecer que a política do atual presidente, o mesmo que disse para uma mulher que ela não merecia ser estuprada porque era feia, para a segurança da mulher era “acabar com estupros” e….só?

O título da obra se refere a um dos pilares da cultura do estupro: a sobrevivência.

É um dilema: se você sobreviveu, então aquilo, o trauma – não pode ter sido tão ruim assim. Estar morta é a única forma de provar que foi ruim. Que foi realmente muito ruim. Que foi terrível. Foi tão terrível que não havia forma de eu ter sobrevivido. (So Mayer, pág. 130 – tradução livre)

Como a maior parte das vítimas sobrevive, surge o famoso “pelo menos você não morreu”. Como se a vida depois de uma violência dessa fosse a mesma coisa do que era antes. Como se o trauma possa ser mitigado simplesmente porque não foi “tão violento assim”, que é o que as pessoas costumam associar a morte.

Esses ensaios provam que não estamos nem perto de encerrar a conversa. Talvez possamos começar admitindo que as 30 ensaístas deste obra terem tido algum tipo de experiência com abuso é inadmissível. E aí, talvez, possamos chegar a um dia em que uma única pessoa passar por isso será inadmissível também.

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