Resenha – Nove noites
por Patricia
em 03/06/14

Nota:

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Buell Quain era um antropólogo norte americano que veio para o Brasil fazer uma pesquisa de campo com os índios Krahô – uma tribo ameaçada de extinção na época – década de 30 (hoje, estima-se que existam apenas 100 índios dessa tribo vivos). Em 1939, cinco meses após aportar no Brasil, Quain estava morto.

Jovem, atraente e rico – apesar de fazer questão de viver modestamente – a morte do estudioso foi um choque e gerou uma onda de mistério. Rapidamente descobriu-se que ele havia deixado cartas para algumas pessoas no que parecia um suicídio.

Damos um pulo no tempo e nos encontramos com o nosso jovem narrador. Jornalista, ele se depara com uma notícia pitoresca em um jornal que dispara vários sensores e desperta uma memória antiga. Começa aqui um caso quase de obsessão do nosso narrador – a quem não somos apresentados formalmente – em descobrir o que de fato aconteceu com Quain.

Ele começa investigando o que Quain estava fazendo com os Krahô e chega, até mesmo, a passar alguns dias com os indígenas numa tentativa frustrada de encontrar vestígios do que aconteceu sessenta e dois anos antes. Aos poucos, ele vai descobrir que depois de tanto tempo, com tantas possíveis testemunhas mortas e muita informação perdida, a busca será mais complexa do que se poderia imaginar.

Bernardo Carvalho criou com esse livro algo quase como um romance histórico. Partindo de um fato real – o suicídio de Quain – ele cria contextos, personagens, possibilidades que não são verdadeiras, mas que interagem tão bem com a história real que poderiam muito bem ser verdades absolutas. Em certos momentos, fiquei tão entretida na leitura que achei que estava lendo uma semi-biografia, se é que algo do tipo existe.

Obsessão é um tema que já pautou diversos livros. No entanto, é necessário usar o tom certo para que ela seja traduzida para o leitor com a mesma intensidade que é sentida pelo personagem. Nove noite tem 150 páginas de uma narrativa inquietante. Misturando cartas, pontos de vista, narradores obscuros e uma cultura que tem um papel no imaginário social (as, cada vez mais escassas, tribos indígenas), ele criou um livro que deixa o leitor a beira do nervoso quase o tempo todo. É complexo tentar explicar por onde o enredo vai se enveredar com tantos componentes que parecem não se encaixar naturalmente.

Do Xingu aos Estados Unidos, o narrador não mede esforços para chegar a uma conclusão que lhe pareça plausível, ainda que esteja partindo de um ponto sem muito embasamento. Justamente por isso, em alguns momentos fiquei na dúvida se o autor conseguiria sair desse emaranhado de loucura que ele parecia estar construindo. Mas Carvalho fecha o livro da única maneira que me parecia razoável. Uma obsessão acaba quase sempre como começa. Apesar de usar um fato real como ponto de partida, o próprio autor deixa claro em seus comentários no posfácio de que o resto veio do imaginário.

Mais um bom autor nacional que eu, lamentavelmente, desconhecia, mas que agora definitivamente fará parte das minhas próximas buscas literárias.

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