Resenha – O 18 de Brumário de Luís Bonaparte
por Patricia
em 31/07/13

Nota:

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A França tem uma História incrivelmente rica: diversas revoluções, assassinato de reis e maníacos por poder que chegaram a conquistar uma boa parte da Europa e golpes de Estado – só para nomear alguns componentes. Muitos dos acontecimentos políticos desse país reverberaram por muito tempo nas mudanças testemunhadas pelo mundo.

A Revolução Francesa durou 10 anos, contou com o famoso episódio da Queda da Bastilha e foi encerrada com o golpe de Estado de Napoleão – denominado 18 de Brumário. Foi uma Revolução que virou o quadro político francês do avesso, quebrando os direitos feudais, diminuindo os direitos do alto clero e estabelecendo princípios bonitos como liberdade, igualdade e fraternidade…tudo muito lindo mesmo…se não tivesse resultado em uma ditadura. Com o golpe de Estado, Napoleão assume o poder e dá início a uma era de conquistas militares e guerras levando a bandeira francesa a novos territórios, aumentando um senso de nacionalismo que apetecia ao povo com fome de independência e glória.

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Todo esse processo é um estudo político à parte porque entender como um clamor por liberdade se torna uma ditadura é uma conversa longa. Não é sobre isso especificamente que o livro de Karl Marx trata. Porém, é uma contextualização importante pois está diretamente ligada a novos golpes que a França viria a sofrer.

Em 1848, através de uma nova revolução, a França promulga uma nova Constituição. Com eleições estabelecidas, o vencedor foi o sobrinho de Napoleão, Luis Bonaparte. Com amplo apoio da sociedade francesa, Luis Bonaparte governou por quatro anos e quando chegou o momento de realizar novas eleições, tal qual seu tio, Luis deu um golpe de Estado para se manter no poder (seu próprio 18 de Brumário). O mais interessante é que o apoio da sociedade permanecia e, assim, ele conseguiu instituir um sistema imperialista sem objeções da população.

É aqui que entra o livro de Marx. O autor tentou entender como duas revoluções que pediam mais participação do povo (defesa do sufrágio universal era um tema recorrente) e consolidaram uma revolta generalizada contra o governo resultaram em ditaduras. E mais, ditaduras guiadas por dois homens da mesma família. Marx nos explica como o Governo manobrou a população para que ela se rebelasse contra um instrumento constitucional que a representava.

“Não é suficiente dizer, como fazem os franceses, que a nação fora tomada de surpresa. Não se perdoa a uma nação ou a uma mulher o momento de descuido em que o primeiro aventureiro que se apresenta as pode violar. O enigma não é solucionado por tais jogos de palavras; é apenas formulado de maneira diferente. Não sei conseguiu explicar ainda como uma nação de 36 milhões de habitantes pôde ser surpreendida e entregue sem resistência ao cativeiro por três cavalheiros de indústria.”

O que Marx faz é avaliar os acontecimentos que levaram a esse novo cenário através de sua uma análise da revolução e suas consequências, sempre antenado no proletariado que constantemente é deixado de lado na luta pelo poder. Três anos antes, Marx lançara junto com Engels o famosíssimo Manifesto Comunista que tratava profundamente dessa luta de classes e da revolução do oprimido.

Marx comenta a nova Constituição e aponta suas principais falhas e contradições que a enfraqueciam perante um golpe como o que ocorreu. Falhas estabelecidas pelos criadores que já se organizavam para mudar as coisas derrubando o documento – a conservadora burguesia em ação. A elite aceitaria uma democracia, mas apenas se garantisse seus direitos.

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Qualquer livro de Marx é impecável do ponto de vista de análise política. Mas a linguagem pode ser um pouco complicada para quem não está acostumado com o assunto. Esse é mais um livro que acrescenta um pouco de História no momento do Brasil já que Marx conclui que as revoluções se repetem ora de forma trágica, ora como farsa. Muitos dos componentes da revolução francesa e dos golpes subsequentes, estão presentes no que vemos hoje no Brasil também – talvez a luta de classes seja um dos mais fortes com a questão da elite governante que se recusa a tirar suas garras do poder. São 106 páginas de puro contexto político de 1850…mas que poderia ser de ontem.

O livro pode ser encontrado gratuitamente na Biblioteca do Exilado.

Se você quer se aprofundar mais na análise política dessa obra (algo que uma resenha não poderia fazer), recomendo ler o artigo da Revista História que está disponível na íntegra aqui.

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3 Comentários em “Resenha – O 18 de Brumário de Luís Bonaparte”


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Claudiana Pereira Araujo em 31.10.2013 às 07:48 Responder

Olá, muito bom seu RESUMÃO, só gostaria de acrescentar, para aqueles que vão procurar um resumo do livro, que é indispensável a leitura do próprio. Uma vez que a função do resumo é apenas nos dar uma noção do que o livro vai tratar, sendo assim não podemos achar que lendo apenas resumos é suficiente.

Finalizo parabenizando novamente a iniciativa do site.

Abraços!

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Paty em 31.10.2013 às 09:09 Responder

Oi Claudiana, isso é verdade. Marx é o tipo de leitura que é impossível resumir totalmente porque sempre tem algo que a gente acaba deixando de lado. 🙂
Obrigada pela visita.
🙂

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Tito Diniz em 13.07.2014 às 12:03 Responder

O brumário resume a genealogia de todos os golpes de estado. Em todos, a síntese é a simplificação brutal. A leitura marxista pode ser harmoniosa. Mas embutida de processos costuma desprezar as raízes do inconsciente favorecendo uma estrutura de complicadas resoluções. Um processo dialético continuado nada mais é do que mentir com algum requinte.


 

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