Resenha – O ar que me falta
por Poderoso
em 07/06/21

Nota:

Por Gabriel Pinheiro – Instagram: @tgpgabriel

Luiz Schwarcz começa “O ar que me falta” com um relato de uma experiência recente: A memória da sensação física da depressão no corpo, a garganta que aperta, o espaço se tornando exíguo para a passagem do ar. Sensação que surge como um susto, no alto de uma pista de esqui com as netas, como uma cruel lembrança de que ela permanece ali, mesmo quando adormecida – a depressão.

Em “O ar que me falta”, Luiz, num gesto bastante corajoso, expõe sua intimidade e sua relação próxima com a depressão. A partir de diferentes passagens por momentos da sua trajetória – na infância, na adolescência e na vida adulta – o autor descreve a onipresença sorrateira da doença, suas tentativas de tratamento, crises, a influência na vida pessoal – a relação com os pais, seu casamento – e na vida profissional – na criação e no sucesso inicial de sua editora.

O pai do autor foi um sobrevivente do Holocausto, emigrado para o Brasil no pós-guerra. O avô – de mesmo nome do neto, Láios, Luiz – uma vítima do campo de concentração de Bergen-Belsen. Uma lembrança de infância identifica um contato inicial com a depressão: a insônia do pai, no quarto ao lado – o som aflitivo das pernas batendo na cama. “Aprendi o sentido da palavra ‘culpa’ desde muito jovem, como algo que fundava a minha existência”.

Filho único, o autor carrega uma responsabilidade afetiva pela harmonia da vida familiar desde criança – sobretudo em relação ao casamento dos pais, marcado por crises. O peso da família, as marcas que definem quem somos, que condicionam quem nos tornaremos. O medo e a solidão da infância, a melancolia da adolescência. O autor tenta mapear os sinais da depressão ao longo de sua vida e de sua formação. Uma tarefa difícil, este voltar-se ao passado: “Quem tem depressão vive apenas em função do momento, o julgamento é sempre absoluto e presente. Fora das sessões de psicanálise ou terapia, fugimos das lembranças e interpretações”.

Seu relato franco passa pelo diagnóstico tardio da bipolaridade, com seus momentos de ora absoluta mania, ora profunda melancolia, os anos de análise, a passagem por diferentes profissionais e a dificuldade no encontro da medicação correta, que levam a diferentes crises, culminando em uma mais severa em 1999.

O ar que me falta é também um relato sobre o processo de escrita ficcional de Luiz, onde ele narra variados episódios pessoais que serviram de base para contos e publicações infantis e sua impossibilidade de desenvolver narrativas mais longas até então. Estas tentativas frustradas de escrita de romances são as que mais se destacam, ganhando espaço, aqui, nessas memórias. A vida como matéria para o fazer artístico.

“É curioso como esses romances frustrados que fazem parte da minha vida entram agora nas minhas memórias. Parece que esses textos todos, já condenados ao lixo, foram escritos para entrar aqui, neste livro de memórias. Servem para que eu me defina pelo que não publiquei. E para que eu hoje ironize os pobres personagens que certo dia pensei ter criado”.

O ar que me falta é um relato aberto, franco e pungente sobre a vida com depressão, sua onipresença mesmo numa vida familiar estável e numa vida profissional de grande êxito. Um monstro que pode adormecer mas, permanece ali, no escuro, à espreita.

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