Resenha – O beijo no asfalto
por Thiago
em 07/05/14

Nota:

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Hoje quero falar de um tipo diferente de literatura, uma peça de teatro. A história no caso também pode ser conhecida em versão romanceada e em alguns casos até menos polêmicas ou em filme.

A peça em questão é “O beijo no asfalto” de Nelson Rodrigues. Autor que dispensa apresentações, mas talvez você tena nascido nos anos 2.000 ou tenha acordado de um coma bem, bem longo, ou simplesmente não conhece sei lá porque, então segue uma breve explanação: Dramaturgo, contista, romancista e jornalista de Recife, mas passou grande parte de sua vida no Rio de Janeiro. Lia a alma humana e a sociedade brasileira como ninguém e depois as transformava em obras literárias, sem limpá-las, mantendo toda a escatologia da realidade.

O mesmo se definia da seguinte forma: “Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico.”

Agora vamos a peça, a mesma foi lançada em 1960 e encenada em 1961 e tem como conflito principal o último desejo de um moribundo. um repórter foi atropelado por um onibus e, na beira da morte, no meio do asfalto, pede ao transeunde que lhe prestou socorro, um beijo, um beijo na boca antes de morrer. Arandir, o transeunde de bom coração, atende o pedido do moribundo. Porém um repórter que estava na região, Amado Ribeiro (que interpretei uma vez, mas isso foi a muito, muito tempo atrás), juntamente com um corrupto delegado, o Cunha, vêem a oportunidade de ganhar dinheiro criando uma rede de acontecimentos falsos publicados sob a manchete de “O Beijo no Asfalto”

“Manja. Quando eu vi o rapaz dar o beijo. Homem beijando homem. No asfalto. Praça da Bandeira. Gente assim. Me deu um troço, uma ideia genial. De repente, Cunha, vamos sacudir esta cidade! Eu e você, nós dois! Cunha.”

Era assim que falava Amado Ribeiro com Cunha, o delegado, e dessa forma, a vida do pobre Arandir foi transformada em um verdadeiro caos.

A peça prossegue tendo como pano de fundo os rumos que a vida de Arandir tomará. Aqui Nelson Rodrigues nos traz, preste atenção, nos anos 60, uma discussão sobre duas coisas mais que atuais, a homossexualidade e o papel da imprensa. Além disso há a análise sobre a vida e a morte, o valor do outro dentro da sociedade.

O interessante de Nelson Rodrigues é sua capacidade de colocar o dedo na ferida social e nos levar pela dor a olhar para nós mesmos dentro da sociedade, porém é possível ler suas obras de modo superficial deixando os símbolos de lado.

Se optar pela opção complexa e dolorosa, terá vários desafios pela frente, reflexões sobre a morte, o preconceito, a mentira, o egoísmo, as regras sociais,o papel da imprensa e por ai vai.

A discussão aqui não é simplesmente sobre o beijo ou uma informação truncada, o beijo é a porta de entrada apenas, mas não para alguma coisa fantasiosa e sim para a realidade, para uma análise profunda do ser humano, este que Aristóteles diz ser um animal social.

Esta tragédia carioca é angustiantemente real, e isso que faz Nelson ser Nelson.

Boa tragédia, quer dizer, boa leitura a todos!!

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Segue um pequeno vídeo com Ruy Castro, que escreveu diversas biografias e dentre elas “Anjo pornográfico” e eu duvido que você adivinha sobre quem se trata…

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