Resenha – O bom soldado
por Patricia
em 19/03/13

Nota:

O bom soldado

No Brasil, pouco se fala de Ford Madox Ford. Porém, ele figura em listas diversas de melhores livros lá fora. Muitos se referem a O bom soldado como “uma história esteticamente perfeita”, uma obra prima e etc. Minha expectativa, portanto, estava alta.

O bom soldado nos apresenta a história de John Dowell, casado com a adorável Florence. Ambos são americanos e têm um estilo de vida que hoje seria considerado algo como classe alta. Ou super alta. Em uma viagem conhecem o aristocrata inglês Edward Ashburham e sua esposa Leonora. Rapidamente se tornam amigos e os quatro fazem tudo juntos. Dowell repete diversas vezes como ele achava agradável a sintonia entre os casais.

Por nove anos, os amigos fazem quase tudo juntos e o nível de intimidade entre eles acaba resultando em um história de mentiras, traição e tristeza explicando a frase inicial do livro: “esta é a história mais triste que eu já ouvi.”

John, aos poucos, vai nos apresentando a realidade por trás de seu casamento com a não tão adorável Florence, os problemas de fidelidade de Edward e a frieza que se abate sobre a manipuladora Leonora. Em várias passagens ele se perde, vai e volta na história como se sua cabeça não conseguisse fazer sentido de tudo ou como se ele se perdesse quando pensa nos detalhes que está tentando nos contar. Por exemplo, suas impressões de sua esposa passam de adorável a prostituta à medida que ele vai se inteirando do caso dela com outros homens e nos apresenta a real Florence: “Ela queria casar com um cavalheiro desocupado; queria uma base na Europa. Queria que seu marido tivesse um sotaque inglês, uma renda de imóveis de cinquenta mil dólares por ano e nenhuma ambição de aumentar essa renda. E insinuou ligeiramente que não queria muita paixão física no caso. Americanos, sabe, são capazes de enfrentar uniões assim sem pestanejar.”  

No meio do livro é quase assustador de ver como a figura que imaginávamos no começo simplesmente não existe e não passou de uma encenação de ambos os casais até que a verdade veio à tona. O livro é uma primazia de um contador de história. Não podemos esquecer, no entanto, que todo o livro é narrado do embaçado ponto de vista de John e ele pode nos contar somente o que ele quer que o leitor saiba.

De fato, em momento nenhum ele avalia seu próprio papel no casamento e sua falta de atitude perante a Florence. John é um homem pacato que acredita que um casamento sem sexo e quase sem contato físico é  normal. Florence dorme de porta trancada (para ele) porque tem um coração fraco e sexo pode causar problemas sérios. Isso é o que ela diz a John e ele acredita que seu papel no casamento é, apenas, de garantir que ela não se exalte muito para que seu coração não falhe.

À medida que John vai descobrindo as mentiras de Florence, ele começa a desconfiar de basicamente tudo o que Florence lhe disse durante todo o tempo que estavam casados. O livro não é apenas a história de um homem traído, é a história de um homem que descobre que viveu uma mentira por muito mais tempo do que seria humanamente possível.

Lindamente escrito com uma sensibilidade palpável, o livro é narrado de maneira a transmitir ao leitor a confusão de John e a permitir que acompanhemos cada passo de sua recuperação bem como sua real visão sobre o mundo em que estava inserido. Definitivamente, um livro que merece ser lido e relido.

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