Resenha – O cemitério
por Patricia
em 29/03/21

Nota:

A resenha pode conter spoilers.

Louis Creed muda-se com a família da grande Chicago para uma pequena cidade no Maine. A esposa, Rachel, e seus filhos, a pequena Ellie de 5 anos e Gage de 2, não sabem muito o que esperar, mas ele aceitou um emprego bom e acredita que a família terá momentos felizes ali. Sua propriedade não tem porteiras e acaba em uma longa estrada por onde passam caminhões pesados cruzando a cidade rumo a centros industriais. Do outro lado da estrada, está a casa de Jud e Norma, moradores de longa data da cidade.

Logo em seus primeiros dias, Jud os leva para conhecer os limites da propriedade e vão até o “Simitério dos bichos” onde crianças, por décadas, enterraram seus animais de estimação. Jud, nascido em 1900, lembra de muitos dos animais que foram enterrados ali (o livro se passa em 1983). É um pouco estranho, mas um importante rito de passagem para crianças, e a família Creed segue em frente.

No primeiro dia do novo trabalho de Louis, um aluno é atropelado. A vítima tinha sofrido danos consideráveis e não havia nada a fazer – era possível ver pedaços do cérebro. Fica claro que Victor Pascow vai morrer. Porém, Louis sofre o primeiro choque quando Victor fala frases completas e coesas parecendo querer alertá-lo de algo. Naquela noite, ele também visita Louis em um pesadelo. Daqui para frente, tudo vai ficar pior exponencialmente.

Há um outro atropelamento importante (serão três no total): Winston Churchill, o gato da família, morre atropelado por um caminhão. Enquanto a esposa e os filhos visitavam seus sogros em Chicago, Jud leva Louis para enterrar o animal. Mas eles passam do Simitério dos bichos e chegam a um lugar muito diferente. No dia seguinte, Churchill reaparece na casa. Não parece mais um gato, mas uma coisa. Um animal zumbi, fedendo a morte, mas “vivo”.

***

Sim, a história é previsível. Eu diria que lá pela página 100 quando King diz pela quinta vez que alguém poderia morrer atropelado, fica claro que isso vai acontecer e quando de fato acontece, o choque é menor do que o esperado. E já sabemos também o que Louis vai fazer. Mas nada disso impacta o ritmo da leitura.

Se tirarmos todas as pitadas sobrenaturais, o que sobra é um homem lidando com uma profunda perda, tomando decisões ruins, enquanto tenta superar uma morte que nunca poderia ter esperado. O luto acomete cada pessoa de um jeito e Louis tem dificuldades reais em lidar com a morte, apesar de ter lidado com ela por tantas vezes em sua vida de médico. Há lições diretas sobre o que a morte significa para quem fica.

Sim – Jud concordou – às vezes, acontece. Talvez ela aprenda alguma coisa sobre o que a morte realmente é: o ponto em que a dor cessa e as boas memórias começam. Não é o fim da vida, mas o fim da dor. (pág. 173)

Talvez seja o livro com melhores descrições de King que li até hoje (mas já aviso que não li todos). O leitor sente a dor de Louis e seu declínio rumo à insanidade é quase apropriado e esperado. Achei também um dos melhores finais de King – sem meio termo, um final aberto, não se importando com o que o leitor esperava, queria ou precisava.

O cemitério (ou O cemitério maldito) foi lançado originalmente em 1983 e indicado ao prêmio World Fantasy Award for Best Novel poucos anos depois e já foi adaptado ao cinema duas vezes, a mais recente adaptação saiu em 2019. Este é o livro que King considera seu livro mais assustador. E faz sentido. Ele trabalhou com medo reais, situações que ficam guardadas lá no fundo e que, de verdade, ninguém quer encarar. O ciclo da vida é uma das coisas mais assustadoras que não se pode explicar. O que torna essa, talvez, sua obra mais humana.

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