Resenha – O clube de boxe de Berlim
por Patricia
em 08/09/14

Nota:

clube-de-boxe-de-berlim-robert-sharenow-ligia-braslauskas-livro-700

Para quem nos visita com certa frequência, isso vai soar como um disco quebrado. Mas para os novos visitantes eu explico que adoro ler qualquer coisa sobre a 2a Guerra Mundial: relatos verdadeiros, ficção romanceada, não ficção, biografias, livros de História pura, não importa. É uma época que me intriga muito por ter acontecido há tão pouco tempo e ser uma daquelas coisas – como a escravidão – em que há mais perguntas que respostas. Eu caço livros sobre esse período há anos e tenho fases em que só leio sobre isso. “O clube de boxe de Berlim” me apareceu por acaso e me chamou a atenção porque, até então, eu não tinha lido um livro assumidamente YA que tinha essa época como cenário.

Aos 14 anos, Karl Stern está prestes a descobrir o que significa de verdade ter Hitler no poder com seu discurso anti-semita. De uma família da classe média, descendente de judeus mas nem um pouco praticantes, além de ter cabelos claros e fugir do estereótipo judeu, ele achava que estava a salvo. O problema é que, na doutrina Hitler, sangue judeu nenhum seria perdoado.

Karl começa a ser perseguido por um grupo de jovens que estão decididos a descobrir os judeus da escola e transformar a vida deles em um inferno.

Depois da primeira sessão de pancadaria, Karl tem que ajudar o pai na galeria. Numa tentativa de sobrevier, seu pai agora só vende quadros de arte aprovada pelo Terceiro Reich, ou seja, quadros bucólicos, que exaltam a beleza da Alemanha e….totalmente tediosos. Os quadros não vendem bem, mas nesse dia algo incrível acontece: entra em cena Max Schmeling – campeão de boxe e celebridade no país. Em troca de um quadro, ele se oferece para ensinar a arte de boxe para o franzino Karl – que ostentava no rosto a marca de sua humilhação na escola com olhos roxos e lábios inchados.

Max convida Karl para visitá-lo no clube de boxe de Berlim, onde as aulas deverão acontecer.

Enquanto isso, a propaganda nazista seguia à toda educando as crianças a reconhecerem e repudiarem judeus. Nesse momento, Hildy – a irmã de Karl – começa a sofrer com apelidos maldosos. A Alemanha de Hitler começava o processo de separar arianos e judeus.

Para Karl que tinha traços arianos, porém, era consideravelmente fácil se excluir de tudo isso e focar na única coisa que lhe importava agora – boxe. Até….que as leis de Nuremberg foram adotadas e ele foi classificado oficialmente como judeu e, numa sessão humilhante, expulso da escola dada sua “influência perniciosa”.  Obrigado a matricular-se em uma escola judaica, Karl começaria a questionar a religião e o que tudo aquilo que acontecia significava de verdade.

“Eu tinha muitos motivos para estar zangado. Era um judeu morando na Alemanha nazista. Havia sido expulso da escola e perdera a namorada. A meu pai tinham sido negadas todas as oportunidades de ter um meio de vida legítimo, e nossa família tinha sido expulsa de nossa casa. Eu estava morando num porão úmido, abaixo dos meus pais e irmã, que tinham aberto mão de toda privacidade, dividindo um cômodo separado por lençóis. Meu ‘herói’Max havia desaparecido na América para buscar lutas. E meu tio favorito acabara de morrer num campo de prisioneiros, simplesmente porque era comunista, judeu ou ambos.”

A escrita de Sharenow é muito boa e bem direcionada aos jovens leitores. Ele escreve YA com um tom muito característico, mas nesse caso, gostei bastante do tema usado como pano de fundo. Com isso, ele criou um livro com mais profundidade do que muitos YAs que podemos encontrar. A história é baseada em fatos reais – o lutador Max Schmeling realmente existiu e muitas de suas lutas retratadas no livro aconteceram de verdade. O desfecho do livro também é baseado em um fato verídico. 

Muitos livros retratam o antes, o durante e o depois da 2a Guerra Mundial. Como alguém que gosta de ler sobre o assunto, conheço diversos aspectos da vida cinzenta que tomou conta da Europa naquela época. No entanto, o que me chamou a atenção nesse livro não tem nada a ver com os fatos apresentados e sim, com o formato do livro voltado para jovens leitores. O personagem principal tem 14 anos e é um clássico perdedor aos olhos dos demais. Se tirássemos o contexto nazista, o bullying que ele sofreu seria igual a qualquer outro.

Aqui temos mais um exemplar de um ótimo livro para apresentar o assunto para jovens leitores – ainda que o final não tenha me animado muito. Tal qual “O Diário de Anne Frank”, essa ficção com fortes tons realistas é uma apresentação consistente do tema nazismo, guerra, ódio religioso e etc. Para os já iniciados no assunto, recomendo fortemente o incrível relato “Noite” de Elie Wiesel que esteve preso em Auschwitz.

Ótimo livro. Escrito de maneira direta para o público alvo, mas que serve de prato cheio para qualquer um que goste do tema.

Postado em: Resenhas
Tags: , , ,

1 Comentário em “Resenha – O clube de boxe de Berlim”


Avatar
Diana Cortés em 28.11.2017 às 16:50 Responder

Embora as histórias sobre lutadores sejam muito parecidas entre si, nunca me aborreço vê-las. Descobri o filme “Mãos de Pedra” e adorei. Sou fã deste tipo de personagens. Tem uma história que pode fazer você rir e chorar. Além disso, o elenco e a direção são excelentes! Este tema é um clássico do cinema.


 

Comentar