Resenha – O Deus das pequenas coisas
por Patricia
em 12/08/13

Nota:

Arundhati Roy

Estha e Rahel são gêmeos. Aos sete anos, eles são separados graças a eventos familiares não muito felizes. O que ninguém parece perceber, no entanto, é que a ligação entre eles era muito intensa e a quebra da mesma resultou em problemas sérios que os marcaram profundamente. Estha se fecha para o mundo, isolando-se na sua cabeça e evitando falar com outras pessoas. Rahel cresce vazia, passando pela vida totalmente alheia ao que acontece ao seu redor.

Eles se reencontrarão 23 anos depois sem perspectiva alguma do que esperar da vida. Mas nada disso é revelado de forma simples. O enredo nos leva numa viagem pela vida dos dois e das gerações anteriores que resultaram no cenário que vemos aqui.

Cada personagem aparece para nos apresentar um novo aspecto da cultura indiana, quer seja bem visto ou não. Ammu, a mãe de Rahel e Estha, tem uma história particularmente triste. Por ser pobre, seu pai não conseguiu juntar um dote significativo e ela chegou aos 18 anos sem nenhuma oferta de casamento. Tragédia. Por conta própria e com a consciência pesada por ter se tornado um estorvo para a família, ela aceita se casar o primeiro pretendente que aparece… para descobrir que ele é alcoolatra e violento.

“No Plymouth, Ammu ia sentada na frente, ao lado de Chacko. Ela havia completado vinte e sete anos, e levava na boca do estômago a fria consciência de que, para ela, a vida já estava vivida. Tinha tido sua chance. Tinha cometido um erro. Tinha casado com o homem errado.”

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Quando o abandona ela deixa de carregar o estigma de mulher sem dote para carregar algo muito pior: o estigma da mulher divorciada. E ainda mais com dois filhos para criar sozinha, já que o marido pode se eximir de qualquer responsabilidade nessa caso. Sem condições de criar os filhos e como resultado de algo terrível, Estha é “devolvido” para o pai e ocorre a separação dos gêmeos. As coisas não melhoram quando Ammu se apaixona por um intocável (ou pária).

A cada página aprendemos mais sobre a ligação dos irmãos e como suas experiências de infância – principalmente as traumáticas (o abuso que um sofreu, a morte de uma prima ainda criança, a separação do pai) – os uniram e separaram ao mesmo tempo. E mais do que isso, como cada acontecimento teve um papel no isolamento e nas decisões futuras de cada um. Afinal, todos nós somos resultados de nossas experiências de vida.

A cultura indiana é uma das mais complexas. Colonizada por mais tempo que o pensável pela Inglaterra e invadida logo depois pela China, muito do que sabemos da História da Índia tem um viés que pode, ou não, estar correto. O que sabemos, no entanto, é que a cultura indiana – ainda que permeada de “ocidentalismos” – garantiu sua sobrevivência através das gerações através de exigências inflexíveis como casar apenas com pessoas da mesma religião, da mesma casta, do mesmo status social e etc. Talvez um preço muito alto a se pagar pela manutenção de uma estrutura fadada a não dar certo.

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O livro abrange todos esses aspectos e incorpora essa complexidade social na história. A escrita da autora é bem floreada. Ela se utiliza de um recurso que traz um tom de poesia para o texto que é a comparação com algo inusitado – Gabriel Garcia Márquez, por exemplo, faz isso de maneira magistral. No entanto, em O Deus das Pequenas Coisas, isso me pareceu um pouco forçado. Isso porque no começo do livro, esse recurso está presente exaustivamente e quase que desaparece do meio para o fim. Não é algo que está sempre ali como se fosse inerente à escrita da autora. Acabei sentindo um certo desligamento com a história quando percebi isso. Isso pode ter sido influenciado pelo fato de que Gabo é um de meus autores preferidos e quando percebi essa semelhança, automaticamente pensei nos textos deles e, francamente, a comparação é quase inevitável mas, com certeza, também é injusta.

Esse foi o primeiro livro de Roy e foi escrito em 1997. Ganhou prêmios  importantes e tal…mas não consegui me ligar a tudo o que ela dizia. Fugindo um pouco dos meus padrões, demorei mais de um mês para terminar esse livro. E, em alguns momentos, tive que me forçar a ler mais algumas páginas. Só que nas últimas 50, o livro decolou e ganhou pontos. Então eu diria que esse é um livro que vale a pena ler mais pelo final e pelo contexto do que qualquer outra coisa.

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1 Comentário em “Resenha – O Deus das pequenas coisas”


Leituras: O deus das pequenas coisas? – Insustentável Leveza (2) em 28.01.2018 às 10:22 Responder

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