Resenha – O encantador: Nabokov e a felicidade
por Patricia
em 01/04/14

Nota:

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Nabokov é um dos meus autores preferidos. O primeiro livro que li do autor foi Lolita e a maestria com que ele conduz a história, imediatamente já foi possível identificá-lo como um mestre. Ele já apareceu em outros dois momentos aqui no Poderoso: com  O olho e A verdadeira vida de Sebastian Knight (que é incrível, aliás).

Nunca tinha ouvido falar de Lila Azam Zanganeh até ouvir que ela estava vindo para a Flip no ano passado (2013) e que tinha escrito um livro que misturava ficção com ensaio sobre seu autor preferido: Nabokov. Não tinha jeito, eu ia ter que descobrir o que essa moça tinha criado – como assim mistura de ficção com ensaio envolvendo o renomado autor?

Pois bem. Obviamente, Lila é fã de Nabokov – daquelas árduas. E lendo as obras do autor, ela encontrou um tema comum: a felicidade. Lila acredita que Nabokov nos apresenta as diferentes maneiras de ser feliz sem ligar para a moral alheia. Temos Humbert e sua paixão pela ninfeta Lolita, os irmãos Van e Ada em um caso de incesto e assim por diante. Esses personagens são daqueles de levantar as sobrancelhas e repensar o mundo, mas Nabokov os insere em um contexto de felicidade que quase faz o leitor esquecer certos detalhes sórdidos.

Por exemplo, se deixarmos escapar que Lolita tem apenas 13 anos, o livro torna-se uma história sobre um amor intenso e obsessivo (e talvez mais obssessivo do que amoroso de verdade). Toda caracterização do enredo está ligada a duas pessoas que querem estar juntas (se acreditarmos no narrador), sem avaliar muito como a sociedade os julgará. Claro que não podem viver em um bolha e sabemos bem como a história de Lolita termina. Mas no fundo, há a indicação de que a felicidade não é igual para todo mundo ainda que seja questionável em algumas circunstâncias. Seria o caso de Nabokov estar nos dizendo para sermos felizes não importa como?

Em um ótimo artigo para o Jornal Rascunho lindamente intitulado “A tirania das paixões” sobre  o conto As irmãs Vane de Nabokov, Martim Vasques da Cunha diz que: “O desejo em suas histórias não se reduz ao meramente sexual; ele é um alimento que impulsiona um circuito fechado no qual as personagens têm a sensação de que estão presas para sempre em uma jaula de onde não há escapatória.” Pois é isso. É impossível escapar da felicidade, para Nabokov. Se bem que em A verdadeira vida de Sebastian Knight, a felicidade passa bem longe. Então acredito que, para o autor, ela possa tomar várias formas diferentes. Justamente porque cada um precisa de coisas diferentes para ser feliz.

No início do livro há um mapa indicando os diversos caminhos para a felicidade. O leitor pode escolher o seu. Isso também se reflete na estrutura do livro. Ler os capítulos um após o outro é apenas o comum mas não é necessário no livro de Lila.

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O livro é uma mistura de pensamentos soltos de Lila, interpretação dos trabalhos de Nabokov, trechos da autobiografia do autor, trechos de seus livros e até uma entrevista imaginária que a autora diz ter feito com o russo. É realmente uma viagem ao mesmo tempo real e fantasiosa. Com uma escrita  fácil de acompanhar e, mesmo com partes não sejam reais, o livro não deixa de ser uma bela apresentação do russo ao leitor. Só que através dos olhos de Lila.

O que me preocupa, no entanto, é se alguém que não leu Nabokov conseguirá aproveitar esse livro. Não sei dizer. Eu mesma, por exemplo, não li “Ada ou ardor” e às vezes me perdia um pouco nas comparações que Lila fazia. Isso não me tirou a vontade de continuar lendo, mas talvez por eu ser fã do autor e já ter lido outras coisas dele. Então talvez não seja um livro aberto a todos. Os que não têm interesse em Nabokov podem tirar desse livro apenas um certo encantamento por Lila.  E, no melhor dos mundos, despertaria um interesse pelo russo (e ai já valeria toda a pena).

Só posso colaborar, no entanto, com minha própria experiência e nesse sentido, O encantador é um livro raro na literatura de hoje. A autora não só não pareceu intimidada com a grandeza de seu objeto de estudo como conseguiu impor seu próprio estilo nas páginas. Criou um híbrido muito bem organizado, pesquisado e sonhado. Uma leitura adorável, no mínimo.

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