Resenha – O homem que amava muito os livros
por Patricia
em 16/08/14

Nota:

O Homem que Amava Muito os Livros

Hora da confissão: muitos anos atrás, quero dizer uns 15, eu peguei Anna Karênina emprestado da biblioteca do colégio. O livro era uma edição mais antiga, capa dura, as páginas amareladas que mostravam que esse livro já tinha visto coisas da vida. Li o livro e me encantei (se você ainda não leu, faça-o o quanto antes). Conclusão: nunca mais devolvi. O livro está comigo até hoje, bem cuidado, lindo, maravilhoso vivendo lá na minha estante.

Admito isso porque desde que comecei a ler “O homem que amava muito os livros” que conta a história REAL de um ladrão de livros, eu fiquei pensando se em algum momento me arrependi de ter furtado Anna Karênina. A resposta é simples: nem um pouco. Nada. Zero. E olha que nem é das melhores edições. Para quem está cogitando, não sou reincidente. Nunca mais afanei descaradamente um livro de uma biblioteca – a menos que fosse a do meu pai, mas aí eu já considero herança antecipada.

Allison Bartlett nos apresenta o interessante mundo de ladrões de livros através de uma história verdadeira. Ela começa já deixando o leitor encantado com a notícia de que nos Estados Unidos existem feiras de livros raros – colecionadores e vendedores se unem para comercializar livros que chegam a valores de 6 dígitos facilmente. De primeiras edições a livros de próprio punho de autores renomados, é possível encontrar qualquer coisa. O Vaticano, por exemplo, tem 85 quilômetros, note bem que não prateleiras, são QUILÔMETROS, de livros, documentos, cartas raras e etc.

Com um tom de jornalismo investigativo, Bartlett nos apresenta a John Gilkey – um ladrão de livros que conheceu enquanto ele cumpria sentença por ter levado mais de cem mil dólares em obras raras de diversos livreiros de São Francisco e outros Estados. A autora entrevistou Gilkey diversas vezes para conhecer seus motivos, modus operandi e onde ele queria chegar roubando livros caríssimos já que não os revendia. E é daí que vem o título do livro, Gilkey roubava livros raros pelo status, porque queria ser visto como um pessoa melhor, mais culta. Ele chegava até a ler alguns dos títulos (ficou horrorizado com ‘Lolita’), mas no geral, sua intenção era apenas roubar para possuir.

Em paralelo, também somos apresentados a Ken Sanders – um tipo de Sherlock Holmes dos livros raros. Como vendedor, ele tornou-se responsável por investigar roubos de obras raras e foi ele quem falou a Bartlett sobre Gilkey. Durante muitos anos, ele foi o ponto de contato entre diversos livreiros que relatavam roubos em suas lojas e a polícia. Quando a ação de um ladrão especializado é confirmada, o livro toma um rumo de história de ação com a autora nos explicando como os livreiros organizaram uma tocaia para prender o ladrão. É até divertido de ler.

A idéia de coleções hoje em dia me parece um debate chatíssimo. Como alguém que gosta de comprar e ter versões físicas de livros, já ouvi de “poxa, mas você poderia doar alguns” – algo que faço anualmente e algo que nunca será ouvido por alguém que mantém um quarto como closet – até “para quê tantos livros se você nunca vai ter tempo de ler todos?”- algo dito apenas por quem mal lê.

Bartlett, em dado momento, fala sobre colecionadores de livros serem algo como “conservadores de partes da herança cultural” e é uma belíssima maneira de descrever a ação e guardar e cuidar de livros.

O livro em si não traz um mundo de informações sobre colecionadores, apenas nos remonta a um mundo lindo de pessoas que amam livros e algumas que têm completa obsessão por eles a ponto de cometer crimes para possuí-los. A escrita de Bartlett é leve e ela não faz questão de dar muita opinião, descrevendo os acontecimentos como uma espectadora como nós. No geral, é um bom livro sobre livros – um gênero do qual realmente gosto.

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